Fheluany Nogueira
Literatura e Emoção
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Manto Castanho


          Dinah pressentia agosto, na ânsia das coisas. Havia desejos no ar, propostas sem pejo, a quase confissão de amantes em transe, o eco distante de um mundo estúpido. Ela gostava de agosto, do seu langor, de sua intestina elaboração. Mês denso, determinado, personalista. E, imprevisto, podia chegar antes do tempo ou romper a cronometrada crosta de trinta dias, ir além, ultrapassar o mecanismo dos meses. Agosto, sem dúvida, tirava, constantemente, a serenidade.

        A moça largou o ensopado que ainda nem tocara e atravessou o cômodo para abrir o vidro. Andou cabisbaixa, balançando rigidamente os braços lacerados. As primeiras sensações teve-as ali mesmo daquela janela. A mangueira do quintal vizinho, aparecera de repente toda desfolhada. E não foi um caso isolado. Uma paisagem circunscrita, que lhe permitia divagações, que profetizava perigo, insegurança. Todos os gramados secos, feixes de galhos e amontoados de folhas pela rua toda. As flores se apagavam na distância, a poeira amarelecia tudo. Lá estava um cachorrão modorrento, triste, catando migalhas...

           — Meu Deus, meu Deus, mas que merda! Por que não dei o fora assim que o clima esquentou? — Não havia nenhuma razão para sentir que falhara e tratou de se convencer de que estava tranquila. Mas, amontoados de partículas finas, espalhados no piso do quarto, continuavam a atormentando.
  
           Febril, respiração ofegante, um pesado torpor por todo o corpo... Via-se cercada por agulhas pontiagudas. Muitos olhos em fogo a espreitar da semiescuridão, como se a examinassem indagando de sua capacidade de resistir. Uma transfusão acontecia no seu pé direito: lenta, longa, em espaçado ensaio. E, já apareceram, pelos cantos, as sombras, mal-se-vendo, perscrutantes. E sons, e cheiros... tudo já formado, não mais se contendo.  Algo disputava o convívio urbano com ela, com todo o descaramento...
 
           Não podia deixar de ruminar sombrios pensamentos. Fechada. Ferrada. Ficou pensando no rumo que as coisas tomaram:
 
 Semana 1
 
          Parecia muito tempo de trabalho sem pisar em terra firme. Mas Dinah já estava acostumada. O sonho da carreira, vinha de mais tempo, desde menina. Assim como muitos turistas são motivados a viajar graças as cenas de filmes, o que eles lhe despertaram foi o desejo de trabalhar como comissária de bordo. Havia seis dias que não tinha uma folga entre uma viagem e outra. Apenas um rápido encontro. No quarto do amante, em um hotel de segunda categoria. Mais uma aventurazinha secreta dos dois.  Ao cabo de duas horas separou as roupas espalhadas no chão e jogou as suas na mala-de-mão, fornecida pela empresa. Do tamanho exato para a lingerie, tênis e roupas para academia. Companheira.
 
           Férias agora: cozinhar, caminhadas em alguns parques, cinema, comer em lugares diferentes e assistir a seriados. Começou pelo último. Tevê e cama... Nem desmanchou a mala, jogada de lá para cá, abandonada sobre o tapete.
 
                      
Semana 2     

           Nuvens tinham se formado. Logo choveria. Os vidros abertos por causa do veranico fora de época. Uma violenta rajada de vento lhe cortou o fôlego. Congelou no pijama de seda e acordou com os pés ardendo, sedenta, faminta.  
 
           Já tinha escurecido havia tempo, e a danceteria deveria estar fechada. Lá, dezenas de pessoas conversavam, bebiam e moviam-se em um salão do tamanho de um hangar de avião. Uma banda tocava, mas o vento uivando nos ouvidos e os dentes batendo não a deixavam ouvir a música. 

          Uma ferroada dolorosa. Um rumor surdo e brando. Ajeitou o corpo com desconforto. Acendeu as luzes: perna inchada, vermelhidão. Deixou-se cair deitada enquanto as unhas buscavam aliviar o prurido. Doeu... bolhas? Chorou baixinho:

           — Isso é um pesadelo, não é? Quando acordar, vou descobrir que não há nada aqui — tomou uns comprimidos.
                      
 
           Outra noite com sono aos pedaços. Voltas na cama. Dinah julgava ouvir ruídos, moscas mascando, dentes roendo... Com as mãos trêmulas, agarrou o tecido do penhoar, os nós dos dedos muito salientes, os músculos das mãos como que paralisados. Apareciam manchas esquisitas nos pés e nos vãos dos dedos. A pele ia-se desprendendo, soltando-se em partículas eriçadas. Mal começava a dormir, sentia intensa coceira entre os dedos. Segurava-se para não se rasgar com as unhas afiadas. Pegou o alicate e cortou-as, rentes, até sangrar.  O pranto transformou-se em soluços, em seguida em fungadas, depois em ganidos que a fizeram se contorcer em espasmos. Com esforço, alcançou os comprimidos e a água na mesinha de cabeceira. Trouxeram o efeito esperado. Ela se calou. Não ouvia mais ruídos, remoagem sem pausa... O silêncio dominou o recinto: uma inércia fria e podre.
                      
 
Semana 3
  

           — Em que pé estamos? — perguntou a irmã, pelo celular. —Você devia ter nos encontrado ontem, mas não apareceu.
  
            — Vai ficar ligando todos os dias? Não vou sair de casa... Estou firme.

               — Não pode se trancafiar, Dinah. Só quero a proteger. Está se isolando cada vez mais... E a alergia?

           — Tenho uma grande, dolorida bola roxa na barriga. Ainda não tenho ideia do que está provocando isso. Continuo procurando – respondeu, em tom desolado. Respirou fundo, soltando o ar. O abdômen se dilatou sob a caixa torácica.
  
              —  Deixe-me ajudá-la! Quer que eu vá ao hospital com você? — preocupada, atenciosa.
  
        — Eu mesma dou um jeito. Analisei o quarto, esquadrinhei cada centímetro. Um cheiro adocicado...   
  
            — Pulgas??... Contrate uma empresa de dedetização.

    — Ah! Calma. Insetos não aparecem ou somem magicamente. De onde teria vindo isso? — o espírito científico queria compreender a biologia, entender os comportamentos e, depois sim, traçar uma medida de controle. Não tinha dúvidas, a opção lhe parecia muito boa.

                 — Que teimosa! Você irrita qualquer um...

           — Devo confessar que a teimosia deve ter alguma virtude, pois quase sempre me reanimo. Vi umas casquinhas dos ovos, também, minúsculas — ela ria, sarcástica. O dia era suportável, mas as noites... Na verdade, mal conseguia manter a firmeza da voz. Queria serenar a irmã, não podia exigir ajuda dela; mas sentia a pele perfurada e o coração espremido até as últimas ramificações da angústia.

        — Errado. Completamente errado. Parece uma louca!  Não posso fazer nada que você não queira. Não se enfurne nesse cubículo — sentia-se invasiva — Você é assim desde criança: nunca aceita o que lhe ofereço e me toma aquilo que quer. Desde o dia em que nasceu fez com que me sentisse uma idiota. Difícil!

           Longo silêncio. Dinah tinha de enfrentar seus próprios problemas. Sabia que tinha que ser assim:
 
         — Não fale besteira. Comprei iscas e veneno pela internet. Devem chegar logo e começo a espalhar pelos murundus — ela reclinou-se na poltrona. O descanso para os pés se ergueu automaticamente, esticando as pernas arroxeadas, cheias de calombos e depressões. Ardência. Inchaço.

        — Azar o seu. Se precisar me ligue — ainda ouviu da irmã, aliviada por não ter mais que disfarçar seus traumas. Espantara qualquer sentimentalismo. Então, sentiu a mão esquerda latejar. Coçou o pulso, beliscou um mamilo, em ato reflexo. O corpo todo comichava, em brasas. Segurou as lágrimas.
 
Semana 4
                      

        Cansaço. Tonteira. Olheiras profundas. Inerte e amortecida dentro do quarto escuro. Murchava e definhava. E, a obscuridade favorecia proliferação... O cheiro de podridão, e carne estragada quase sufocava. Dinah sentia que mandíbulas lhe cortavam.  Os suores vinham ligeiros, intensos A pressão caía. Náusea e vômito, dor no estômago, placas, urticária. Faltava-lhe oxigênio no cérebro. Entorpecida, enjoada e deslocada, perdera a capacidade de luta. A exceção eram seus olhos: brilhavam, penetrantes, inquietos como de uma onça, buscavam a razão da dor inconveniente e inexplicável. Não dormia mais; aos sobressaltos despertava a cada momento, sonhando com os sustos e assustando-se com a realidade.

         Os bichos a comiam viva. Vorazes. Alongados, inchados... Atacavam o tronco sangrento, iam perfurando a pele, expondo entranhas. A colônia cresceu, os parasitas se espalharam pelos móveis, cortinas, carpete, atrás de quadros. Locais protegidos. Sugaram sangue e sobreviveram escondidos nas frestas minúsculas. Fissuras e fendas. Já molentes, espessos, carregados de humores internos, sucos quase mórbidos. Uma fêmea ia se transformando em dúzias. Iam se adensando, tornavam-se grossos e hediondos.

        Cheios corriam para seus esconderijos para digerir a refeição e quando a fome voltava, novamente procuravam a hospedeira. Introduziam-se por baixo do seu pijama, resvalam-se pelas pernas. Podia vê-los então, insetos vivos na cama; corpo plano e sem asas. Podia perceber o movimento deles escapando pelos lençóis e a marca marrom de seus excrementos. O contato repelente nauseava.

           Endireitou o corpo e ergueu um braço para coçar a axila. Um corpo-ferida, de tonalidade bolorenta.  Com o rosto estranhamente difuso, como se a vista tivesse perdido o foco, Dinah mirou-se no espelho: o dorso nu, em carne-viva, trazia linhas que eram como marcas deixadas por um caracol. A lembrança dos caracóis ao sol tirava um pouco de nojo de Dinah. No entanto, ela tinha de tomar banho imediatamente, esfregar-se com bucha e sabão até o sangue, trocar as roupas de cama, borrifar perfume pelo quarto, acender incensos.
 
            Às vezes, abria um claro na memória e Dinah se via menina, brincando de boneca com a irmã ou surpreendidas pela mãe, nadando no regato. As horas se estendiam, minutos que pareciam anos. Perdida e tremendo, ela se daria algum tempo para se arrepender dos erros cometidos? E relembrou o último verão, quando rumou para novos romances... Não podia mais pensar. Tudo era uma verdade dolorida e crispante. Ela sacudiu a cabeça. O semblante distorcido pela perplexidade. Olhos aflitos. Aspecto deplorável, doentio: a percepção do perigo. Compunha estranha figura.

           Destrançou as pernas bruscamente e olhou em direção à porta. Levantou-se da cama, de um salto, rogando pragas; porém, cambaleante, no segundo passo tombou... E, em segundos, estava coberta por um sórdido manto castanho, em busca de comida, sangue fresco e quente. Uma chuva fina de seres minúsculos recobriram o corpo, caíam sobre a pele com um breve estalido, escorregavam e, de imediato, mecanicamente, o espaço livre era recoberto por outro. Iam caindo sobre a boca, o nariz, os olhos. Pouco a pouco tudo se transformava num aglomerado de protuberâncias em ziguezague, um enorme tumor putrefato; fincado por agressivos ferrões, repetidamente. Um sinal químico chamava para ataque. Continuavam picando muito tempo depois da glândula de veneno estar vazia. Vergões, pústulas.

 
 ΩΩ
                      
 
         — Percevejos. Veja os sinais deles na estrutura da cama e no espaço entre o ela e a parede — comentou o chefe da dedetização.
 
       — Estas manchinhas com coloração ferrugem... o que são? — indagou a mulher.
 
          — Fezes... de sangue digerido — o profissional estava espantado. Nunca havia visto uma infestação desse porte. Nem insetos de tal envergadura.
 
       —  E estes pontos avermelhados nas roupas e no colchão?

       — Sangue fresco. É seu o apartamento? — o dedetizador curioso.

        — Não. Ainda não. Minha irmã faleceu aqui, há uns quinze dias. Depressão,  anemia, infecção generalizada. A coisa simplesmente escapou...

          — Do controle?  Esse é o problema. As coisas tendem a se expandir. É como se as desgraças se atraíssem. Essa praga aqui pode ser a causa do óbito. A senhora não vai acreditar, mas o pessoal da firma, no Rio, atendeu um caso assim. Um cara morreu do mesmo jeito. Um piloto, num hotelzinho.

         — Pois é! Quem não vai acreditar é o senhor. Meu marido. Os dois trabalhavam na aviação. Deve ser algo que os apanhou nas viagens. Como saber aonde iam? — a mulher falava baixo, devagar, em tom uniforme. Pôs-se a balançar o corpo em sintonia com suas palavras.

             — Ué! Será que estiveram juntos?

         — Só Deus sabe! A desconfiança é uma rua de mão dupla — desajeitada.

          — Desculpe! Não estou insinuando nada... — percebendo a indiscrição.

          — Ainda pude me despedir dele antes da morte.  Pálido, frio, inconsciente. Foi levado para o hospital com chiados no peito, inchaço nos lábios e na língua. Fiquei tão envolvida que descuidei da maninha.

           — Nossa! Que coincidência!

       — Como imaginar que tudo acabaria assim? Arrumei, como sempre, a bagagem dele para essa viagem. Até coloquei um sachê. Meu orixá tinha me presenteado. Para uma arrumação. Ninguém sabe que fui ao terreiro pedir conselhos — arrasada, apesar de não pôr para fora as emoções recalcadas. — Aff! Não sei porque estou falando sobre isso. Águas passadas

       — Cada história que a gente escuta por aí. Sinto muito, dona... — a conversa estava encerrada.

      — Até mais! — a mulher se despedia. — Os percevejos levaram muito longe a minha vingança! Eu pensei vingançaA palavra me escapou. É verdade é que não sei definir, nem imprecisamente a minha culpa, mas os percevejos me vingaram... — era o que lhe ia na alma.
 
 
ΩΩ
                      
 
       Chuva. Frio. É preciso perceber agosto, mesmo a contragosto, aos pedaços, em sutileza, numa grave tarefa de buscas tênues, finas. De uma soma imprevisível é que nasce agosto...
 
 
 
Tema: insetos, um pouco de romance proibido.


Fheluany Nogueira
Enviado por Fheluany Nogueira em 05/09/2019
Alterado em 05/09/2019
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