Fheluany Nogueira
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De Modo Bem Idiota – Dtrl 34
 
 
 
          Há muitos homens no mundo. Estão sempre aí, falando, mexendo, fazendo coisas sérias ou banais. Fico muito satisfeita com isso. Só que eles não são Levi. E não têm, nos olhos, aquela cor indecisa...
 
          Era um prazer observar Levi, bonito, com todos os quarenta anos. Agradavam-me a aparência dele, a forma como se vestia, seu cheiro, a boca, os cabelos cacheados.... Gostava sobretudo de suas tentativas desajeitadas de me beijar. E... os olhos? Seriam verdes ou quase azuis? Castanhos ou pretos? Fechados, ou mais abertos? Serenos, vagabundos, indecifráveis ou algo mais que se possa dizer sobre eles? Não importa. Eram o que eram. E, defini-los com exatidão, estragaria tudo. Seria um macho qualquer, jamais Levi. Os dele eram brilhantes e todo o corpo, um mistério. Não sei dizer nada de mais importante e certo. O que me interessou, de verdade, foram aqueles olhos indecisos.
 
          A ruela onde Levi morava era escura, o sol batia ali — se é que batia — no máximo, uma hora por dia, entre meio-dia e uma, em pleno verão. Velhos ficavam mascando fumo ou jogando cartas sebentas de baralho, na calçada; os moços usavam drogas e roubavam pelo dinheiro, para elas. Eu ia até lá, sem medo, para estar com ele.
 
 
          Na primeira vez. Apoiei a cabeça na parede, e ficamos assim por um momento, cada um de nós medindo o outro. O instinto o forçava a ir atrás de sexo, e só de olhá-lo, eu sabia que esse impulso poderia ser bem forte. Percebi que ficara em silêncio tempo demais e dei um sorriso descontraído.
 
          — Bem-vinda! — ele murmurou, movendo a boca até minha orelha e depois até o pescoço. Inclinei a cabeça, obediente, contra a vontade, gostando da forma como sua boca se tornava mais feroz na pele, seus dentes me provocando. Um formigamento quente e familiar tomou a situação. Os sons tornaram-se abafados.
 
         — Sinto-me completa. Seus beijos parecem me roubar um pouco de vida — eu não gracejava.
 
 
          Tento esquecer... Esse é o resultado de deduções e os elementos de onde tirei uma incerta certeza de que havia algo no ar. Depois de alguns encontros, achei folhas de papel amarelecido, no armário, junto às garrafas de bebidas. Em cada folha um poema que falava de um homem que teria existido ou não e que poderia ser a chave do mistério. Algo, em suas palavras, disparou-me um alarme; algo a que eu deveria ter prestado atenção. Em vez disso, fiquei ainda mais envolvida com a proximidade de Levi, em como sua mão corria por minha face, indo para o pescoço e para o ombro. Os dedos longos e sensuais.
 
          No original, o primeiro poema vinha com um título pretencioso de "Oh Mors, ubi est victoria tua? (Morte, onde está o seu atrativo?)” e foi exatamente pela pretensão que não lhe dei crédito, mas deveria ter desconfiado:
 
A mal chegou já era noite.
O corpo era campo de batalha:
Micróbios, vírus e bactérias,
antibióticos e contravenenos:
uma guerra febril, sem vencedor.
Guerra intestina, que tramava um destino.
 
O homem perdeu os olhos, a força, a sensação.
Adormeceu cansado.
Na manhã, ele não era.
Restava o corpo com marcas da batalha,
ainda não acabada...
 
          O segundo não deixava por menos, mais explicativo, mais evocativo, talvez. Seria material suficiente para uma análise definitiva? Ou, quem sabe, precisaria de exame de sangue, de corpo, de coração?
 
Procure no círculo o vazio,
encontrará a irremediável sensação de derrota.
Procure a lua, nas poças d'água
terá o céu a seus pés.
Vá atrás das flores temporãs,
das árvores já mortas,
insista em viver!
Vá e volte...
 
Somente a noite a sua frente
e um resto de chuva caindo sem vontade.
No mais, a estrada lamacenta,
a névoa que desce...
Dentro de mim, uma vontade leviana de ser outro...
 
               Se tem coisa, nessa vida, que me deixa intrigada, é aquilo que não me traz dimensão precisa do que é. Fiquei remoendo as informações que os poemas transmitiam. Embora Levi escrevesse sobre outro, eu pressentia que falava de si mesmo. Naquelas folhas amassadas havia uma espécie de confissão, todo o meu construto sobre ele explodiu. Eu pensava que o conhecia bem, uma semana, um mês, dois meses antes. Temia que estivesse comigo uma hiena, sanfonando um ataque certeiro, levando, ao final, a alegria para o ralo.
 
           Jamais conhecera o homem real, secreto; e, depois de conhecer suas composições, tive de reconstruir minha imagem dele e atribuir novos significados a experiências passadas. Mas esse novo Levi, esse substituto, quanto tempo ele ficaria por aqui? Quanto tempo antes que novos segredos surgissem? Quanto tempo antes que ele revelasse a sua próxima camada? Eu temia que, no futuro, houvesse um número infinito de Levis, sem que nunca eu conseguisse alcançar o real.
 
 
          O namoro prosseguiu
e, apesar de minhas apreensões, logo me senti confiante novamente e comecei a curtir. Não podia evitar, era assim que eu funcionava e assim que levava a vida. Gostava do novo, até mesmo algo tão corriqueiro como tomar um café expresso. Às vezes, agia de modo bem idiota, mas a maior parte do tempo eu aproveitava. Se ele quisesse me levar e me transformar em sua escrava sexual, eu iria, desde que... Dei as costas para o espelho que parecia estar me sacaneando, vislumbrei meu destino naquele quarto. Minhas preocupações passaram a incomodar tanto quanto o vento batendo nos olhos.
 
         — Não sei nada sobre você – disse-lhe uma vez. Ele respondeu acariciando-me os seios e beijando todo o corpo. Senti um sorriso irônico ao redor do ímpeto.
 
          Uma barreira ao conhecimento completo do outro não está naquele que compartilha, e sim no outro. Teria que esperar que ele se revelasse... Observá-lo sem me envolver com o contorno físico da criatura? Afastar-me do retrato completo que criara: os preenchimentos das curvas de suas faces, a linha de seu nariz, o som de sua voz, que não pareciam ser nada além de um invólucro transparente. Cada vez que lhe via o rosto... era minha própria ideia a seu respeito. Ah! E os olhos?
 
 
          Não paramos no tempo. Vamos além nele. Naquela tarde, após uns três meses de encontros apaixonados, quando abri a porta, mal percebi um bicho num canto da sala. Sangue borrifado pelas paredes. Ele desviou o olhar, sacudiu a mão desocupada e pareceu querer se acomodar: peludo, luzidio, teso, contundente, cheirava o ar e mastigava. Mastigava o quê? Era um corpo sob ele? Um coração na boca? Carne esfolada, saltante e disforme no chão... Só tive tempo de ver de relance o vermelho que escorregava da boca ao pescoço.
 
           — Saia! Saia daqui! Fora! — a voz gutural me trouxe pânico. As luzes se acenderam sem aviso, e um leve cheiro de enxofre permeou o ar. Um brilho estranho fez com que eu apertasse os olhos. A coisa toda era estranha demais para entender.
 
          Aqueles olhos vorazes não me deixaram dúvidas. Sem vestígio algum do leve bronzeado, entremeada aos pelos, a pele ganhara um tom cadavérico. Os cabelos, sempre bem penteados em um rabo-de-cavalo, manteve o comprimento, mas escureceu até um preto retinto, e de ondulado e fino passou a liso e grosso, emaranhado. O corpo atlético estava deformado, cabeça disforme, corcunda, braços e pernas tortos, unhas pontiagudas. Parecia mal aguentar a agonia de ficar naquela forma, que intuí ser a sua natural.
 
              — Não posso mudar o que sou! — ainda ouvi. A descoberta caiu dentro de mim como chumbo, pesado e gélido. Eu estava mais aturdida do que constrangida ou furiosa pela revelação. Com raiva, magoada. A estranheza, então, passou a medo — conseguira enxergar o suficiente?
 
 
        A sala voltou ao breu. Vinha-me um turbilhão de pensamentos: o que era aquilo? Um xamã? Trocaria a identidade?  Seria outro? E a nossa paixão? Perdida em indagações, só dei por mim quando a mão dele me agarrou de repente e me puxou com violência para dentro, para a escuridão do apartamento. Ele aguentou firme. Agarrou-me e não me soltou, enquanto passava por transformações horríveis. Não importava o que ele virasse, continuava agarrado a mim. Então o braço da criatura começou a apertar mais meu pulso, a puxar minha pele como se quisesse retirá-la. Sentia muita dor, desesperada, mas não conseguia me mover. A única coisa que consegui foi gritar:
 
           — Ei! Vai me devorar também? — Um empurrão contra a porta, fechou-a com um estrondo. Um muro de energia me atingiu, atirando-me de costas no sofá. Era como num daqueles brinquedos de parque de diversão, em que as pessoas ficam de pé ao longo de um círculo, que vai girando mais e mais depressa, até que a inércia gruda todo mundo à parede. Mover-me tornou-se uma agonia. Até respirar era um sofrimento. Era como Atlas, carregando o peso do mundo nas costas.  
 
          — Sua vaca! — fez a voz mais ameaçadora possível, que percebi não ser bravata. Ele me passou as unhas no rosto, numa provocação, e fez os pelos de meu pescoço se arrepiarem, mas não de prazer. Eu me contorci. — Que gracinha! E até que é meio excitante. Acho que gostaria de vê-la tomar a ofensiva. Talvez se você se comportar como uma boa menina... Aí! Serei rápido... — E força, muita força. Com tamanhas mudanças, ele só podia ser identificado pelos olhos, que refletia no espelho a mesma luminescência. Casco duro zuniu e atingiu o meu rosto. Sangue ríspido e célere porejou.
 
          A velocidade de seus membros acompanhava a de meus pensamentos na tentativa de me defender. Já que ele estava com as duas mãos ocupadas, eu aproveitei a chance. E então veio o susto maior: numa transformação rápida, garras afiadas surgiram em minhas mãos. Passei-as pelos ombros dele. Seus reflexos rápidos não me deixaram ir muito longe com o gesto, mas consegui tirar sangue antes de ele agarrar meu pulso e golpeá-lo contra parede. Perdi a noção de espaço e tempo e até de quem era eu. Dessituei-me, ganhei cascas e tessituras. Eu não podia desligar a absorção destrutiva que tomava conta de mim, mesmo que quisesse. Tudo ocorria por vontade própria, e levado pelas circunstâncias. E vinha bem forte. Isso significava lutar, mesmo ainda tentando entender o que se desenrolava.
 
           — Você está me enfrentando? — o combatente conseguia superar deformidades e dor. Ergui a cabeça, alarmada. As armadilhas não acabavam. Foi mais que um susto, um desses choques de adrenalina que arrancam o sujeito, num salto, direto da maior bebedeira para a lucidez. Foi isso, mas foi mais que isso. Eu senti, naquele momento, como se alguma coisa fora de mim tivesse dado um basta. Mas, pelo balançar dos braços, pelo relampejar dos olhos e pelo brilhar dos dentes, eu vi que esse afrontamento já estava marcado.
 
              Segui, deixando minha aparência se transformar enquanto eu lutava. A sensação era tão estupenda que nem precisava me ver para saber o que acontecia. Meu porte mignon aumentou em altura, mantendo-se esbelto, mas adquiriu um contorno mais seco e duro. Meus seios, já impressionantes pelos padrões normais, ficaram ainda maiores, os membros ganharam músculos. Uma metamorfose pulsante, imprevisível nas circunstâncias, para mim mesma e o entorno. O inferno não conheceria fúria pior do que a sentida por mim naquele momento.
 
           No primeiro salto, eu me agarrei e me atraquei em seus ombros. Fui carregada no ar e jogada contra uma parede. Depois me puxou por um braço, agarrando-me. Eu me encontrei enrolada, sem fôlego. Enroscados um no outro, primeiro de pé, depois no chão, rolando. Quando conseguia respirar, só sentia sangue e pó. Louças e vidros estilhaçados. Mesas quebradas. Cadeiras e sofá virados. A estante capenga, finalmente, em pedaços.
 
            Era como participar de uma caçada de ratos, empunhando um longo espeto de ferro. Ora Levi era o gato e eu o rato; depois vinha a inversão. O rato e gato acuados fugiam soltando guinchos, esquivam-se com agilidade das pontas afiadas dos espetos. Quando se apanhava um: o rato era elevado no ar, esguichando sangue. O outro, malferido, tingia o carpete. Eu me comprazia nessa tarefa repugnante e excitante, segurando o vômito, matando, matando...
 
 
             E foi assim! Ele me bateu de novo, desta vez acrescentando mais força ao golpe.  Doeu. Muito.
 
                       — Você não faz a menor ideia do que está fazendo — ele grunhia, movendo se para me atingir de novo. Em outra explosão de energia, joguei o animal através da sala, até a parede contrária. Eu me retesei toda.
 
                      — Como pode? — começou Levi, os olhos faiscando de fúria. Eu estava em movimento antes que as palavras tivessem saído de sua boca. Ser agredida desencadeou algo dentro de mim, uma resposta irada que eu sabia ser inútil, mas que não podia evitar. Saltei sobre ele, tomando forma vezes maior e mais forte. A transformação levou apenas um segundo, mas doeu como o diabo, enquanto meu corpo humano se expandia, e os pés e mãos se transformavam em patas robustas, com garras. Eu contava com o elemento surpresa, quando me choquei com ele, lançando-o ao chão.
 
                      Minha vitória durou pouco. Antes que pudesse cravar os dentes em seu pescoço, uma força igual à de um furacão me arrancou, arremessando-me sobre a pedra da cozinha. A dor fez com que eu voltasse ao feitio normal, enquanto vidros e louças se partiam detrás de mim, os estilhaços voando ao meu redor e cortando-me a pele. Movi-me de novo, frenética, ciente da futilidade, mas precisando agir, envolvida demais no calor da batalha.
 
                    Desta vez, arremeti contra o monstro, forçando o corpo a tomar o formato de... bem, e nem sabia do quê. Não tinha nenhuma forma específica, apenas características: garras, presas, escamas, músculos. Forte. Grande. Perigoso. Um ser de pesadelo, um verdadeiro demônio do inferno. Ele, com olhos arregalados observando-me com horror e espanto, adivinhou o que eu faria, e me pegou ainda no ar, atirando-me para trás, não antes que eu arrancasse seu lábio inferior com uma mordida, enquanto as unhas rasgavam profundamente sua barriga. Aterrissei, destroçando cada nervo dentro de mim. A epiderme espessa do novo talhe protegeu-me por um curto instante, em dor e exaustão.
 
                O ar vibrava com o poder a nossa volta, e de repente senti-me sufocar. Recuei, o terror dominando cada parte de mim, os pulmões incapazes de se encherem de ar. Um frio percorreu-me a espinha, quando, de repente, encontrei a solução.
 
                 Morte na certa. Os olhos arregalados e cheios de sangue. Degolado vivo a golpes de cutelo, o mesmo que Levi usou tantas vezes para transformar sabores e fomentar unicamente vida! O sangue não parava de lhe escorrer pelo pescoço e camadas de derme e couro se amontoavam sob o cadáver.
 
                Ali estava o xamã, decapitado, mais destruído que nunca e pressenti que outros seres daquela espécie só estariam em minha órbita para serem destruídos:
 
              — Como você, Levi. Como você! — Pensou que me tomaria? Que surpresa, hein? Sobrevivi, mesmo marcada com a sua assinatura.
 
                   Aquela criatura era incapaz de nenhum outro sacrifício que não seja o de viver. Um homem que pilhava peles e identidades, sem glórias, sem amanhã, sem hoje, sem agora. Tela-branca, esfera vazia. Sem nada, que o despertasse para perguntar o que era, enquanto se elaborava e tomava forma. Estava, agora, decepado como coisa, como porco.
 
                Voltei ao meu delicado corpo humano bem na hora em que outra rede energética me prendeu no lugar, garantindo que eu não poderia mais me mexer. As mudanças de forma de meu ataque haviam durado minutos, e agora eu me sentia completamente drenada e acabada. Assusta quando se descobre e tem que assumir o sem-sentido, disputar, mover-se, falar, repetir-se, ficar exausta, comer, beber.
 
                  E, fui repassando as histórias de família, percebendo que não eram simples histórias. Era a preparação. Sem brincadeira. Lidaria com os próprios demônios e com os demônios de outros. Sem apego a velhas ideias, velhas concepções e valores, mantendo o equilíbrio diante de qualquer situação. Forte. Guardiã vinte e quatro horas por dia: entrar dentro de mim mesma e tirar todas as limitações que o físico impõe.
 
 
                    Avaliei minha capacidade de luta; e procurei a mim diante do espelho: só o rosto cansado na superfície fria; só o susto dos olhos; só o ar de criança envelhecida... quem sou eu e o que significo? O espelho me devolve a pergunta e o ruído. Com sangue, nele escrevi:
 
Olhos de fogo, de poder daninho.
Nasci com ele nas veias...
Meu primeiro choro foi de espanto,
Diante do inexorável!
  
Fiquei inerte e amortecida diante da escuridão,
bicho esquisito se procurando,
examinando as patas,
experimentando os olhos,
tocando as mãos. . .
Era eu? não era? era o quê, ou era quem?
ninguém ou nada? coisa vivente?
Desolação...
E, comecei a descobrir situações.
Eu.
Podia chamar-me de “eu”.
Experimentei: eu! mundo!
 
Outra dentro de mim:
A outra sou eu.
 
 
             Agora podia sentir o poder ardendo dentro de mim, diferente da vida que preenchia a humana. A imortalidade resplandecia como uma estrela na noite, fria e pura. Minha carne não seria mais impelida, de forma passional, pela percepção de que o tempo era curto.


 
 
 
Tema: Metamorfo
 
 
Fheluany Nogueira
Enviado por Fheluany Nogueira em 25/04/2019
Alterado em 23/05/2019
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