Fheluany Nogueira
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Viver da Luz
 
 
— Quero ir embora. Tenho prova amanhã — o súbito pedido resultou num solavanco de protesto do Ford. O homem desviou os olhos da estrada o tempo suficiente para encarar a filha com uma cintilação interrogativa. Ela quase sussurrava, temendo a reação do pai. Ele estava mais esquisito ainda. A mãe tinha razão ao pedir divórcio.
O homem exalou um suspiro... Sem responder, virou o carro na estrada. Devagar, cuidadoso, mas disperso:

O mundo é assim, rico de aspirações. A terra desperta imagens desterradas, de outras eras: perdidas fogueiras, homens nus ou semi. Dorsos de monstros levantando cordilheiras. Olhos de fogo brilham buscando o profundo das fendas. O espanto de existir...
 
 
Maquinalmente, havia parado alguns quilômetros atrás, no primeiro posto da estrada. A menina comprou sorvete e ele tomou café amargo, enquanto observava apetrechos nas prateleiras entulhadas.
A estatueta chamou-lhe a atenção: gesso, um dorso de mulher, corpo sensual, cabelos amarrados como de uma criança. Trazia os olhos cerrados, mas estranha luz refletia-lhe na cabeça erguida, como se mirasse o sol. A mesma luminosidade descia-lhe até o peito em raios selvagens. Uma deusa majestosa comprada por apenas dois sorrisos e algumas notas.

De volta para o carro, depositou a estatueta no banco traseiro, embalada com plástico protetor, em uma caixa de papelão. Ele mesmo fiscalizara o trabalho da vendedora. Uma deusa que colocaria em um altivo pedestal. Na estante da sala, em destaque. Qual casa? Onde? Perdera tudo, tinha somente a filha, a cada dois finais de semana. Uma intuição funda trazia-o para diante do pouco que restava de si mesmo e da imagem vívida que o consumia.

Em seguida... Por que comprara aquilo? Não sabia o que fazer! Os cestos estavam cheios, e não podia jogar uma deusa no lixo, assim à toa, sob olhares de todo mundo. E se a deixasse resvalar de mansinho...  poderia escutar as pessoas pisando nela, fazendo um estranho barulho de esmagamento. Viu-a jogada na horta, em tempo de chuva, uma aboboreira crescendo nela, talos atravessando os ouvidos e uma abóbora bem em cima da boca. Abelhas fariam colmeias na cabeça, o resto do corpo ficaria zanzando sem orientação.

— Não. É a imagem viva de uma santa mulher que se alimentou da luz! — o riso era ansioso, não daria as costas à tentação.

— Falou comigo, pai? — a garota, assombrada, indagou levantando os olhos do celular.

— Nada, anjo! Só pensei em voz alta — acelerou o carro. Procurava situar-se naquela época áspera, de cores agressivas.

Canções no rádio embalavam as divagações. A garota não conseguia mais estar atenta aos vídeos, preocupada com o trânsito e a estranheza da situação. Mal acreditou quando desceu diante de casa e fez o pai prometer que iria direto para o hotel onde estava morando.

 
Agora estavam a sós, ele e sua deusa. Desembrulhou-a e a colocou no banco ao seu lado. Voltou para a estrada que se torcia e se recurvava, cruzando árvores e casebres.

A cabeça flutuava. Foi dando vida ao ídolo. Pareceu ouvir batidas de aflição:  uuunf!... uuunf!... Começaram lentas, baixinho, quase imperceptível, e iam aumentando num crescendo apavorante. O homem dirigia desligado de todos os sons naturais do mundo, escutava apenas o barulho do tórax da deusa na caixa. Sabedoria indiscutível. Eles dois, distantes, vagando... Aprenderia com ela a viver da Luz Eterna. Voariam ao reino onde não existiam perguntas, ao paraíso da beatitude interior.

A estrada se tornava gradativamente mais doentia: rugas na trilha das carretas, tumores de asfalto remendado — tristes enfermidades da velhice, cada uma constituindo um cenário fantástico. As curvas eram como serpentes cuspindo veneno em divertida caçada. A estatueta ia sacudida em todas as direções.

De repente, o Ford inclinou-se em ângulo perigoso, arremessou-se para o alto e voltou ao chão em uma estreita trilha, volteando árvores e uma cisterna, conduzido por sobre regos, buracos e sulcos. Estacou em uma moita de arbustos, encalhado na pequena elevação.

O motorista buscou sua deusa. Caída... Pedaços espalhados. Ele sentiu-se à beira do precipício, ausente a aura protetora, mas estava em paz. Nada ocasionaria o mal. Vivia o poder da indução.
 
— Viver da Luz, com a Luz, para a Luz. Eu Sou Luz — o motorista riscou o fósforo e jogou na gasolina que vazava.


 
 
 
 
Fheluany Nogueira
Enviado por Fheluany Nogueira em 08/11/2018
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