Fheluany Nogueira
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Amanita
 
 

          Como me lembrar das paisagens por onde passei de onde não trouxe, na melhor das hipóteses uma foto sem foco? Existe em mim a obsessão pela prova de que visitei um lugar, uma inevitável nostalgia... Bem, desta vez, vou ter que recorrer a uma coisa que, ironicamente, estamos esquecendo de usar — a memória.

            Dentro das imagens que tenho só na lembrança, feita em ondas de luz, contornos, perspectivas e coordenadas: a aurora, no início de um dia, em um jardim encantado. Intermináveis canteiros de pequenas folhas amarelecidas, ligeiramente orvalhadas. Limo úmido e sombreado que vestia a terra.  Eu, menina, em corcoveios ao vento, pelos paços do espaço, minúscula. Levemente tonta e tremulante, pairo no ar. Tão bonita, tão mansa e indefesa. Vestida de arco-íris, flutuava sobre pétalas, como pássaro, leve no meu sonho. Sorriso fácil.

            Apenas uma estampa distanciada, viva ainda por causa do canto agudo das correntes que deslizavam pelas hastes do pequeno, mas garboso chapéu vermelho; poás brancos o enfeitavam. Cada vez mais alto, secura na boca e o sentimento de crescer. Era uma vertigem, era bom... Uma criança que apenas começava a engatinhar. Tudo compunha o cenário. Uma dorzinha constante me fazia sentir o corpo como uma urgência. Era preciso sentir o organismo, devagarinho. Descobrir os pulmões, enchê-los de ar.

           Eu dançava segura pelos grilhões, estalava os dedos e meneava o torso, levada para estranhas vivências.  Sobre tudo o ar, caricioso, fino-doce, a impregnar-me de levitude, em camadas, o corpo volátil e indócil. Naquele balanço, sentia que estava me salvando, com ânsia. Sem identidade, nem situação.
 Só via o horizonte, fino. O dia que não acabava mais...
A única maneira que tenho de compartilhar que estive lá é contando da viagem inesperada que me levou a um voo plano e ensolarado. Foi como renascer em outra forma e com novas forças, recolher o que semeei.

 
           Depois, cheguei em casa, troquei a roupa, fui dormir. Não cumprimentei ninguém. Não aguentava mais ter que estar distante do jardim. Apaguei tudo quanto era luz, não queria ver ninguém. Não queria compromissos. E, ficava triste, a pele ia enrugando, o coração espremido até as últimas ramificações da angústia. O mundo oficial e organizado me convocava, dentro das normas exatas de um ofício. Triste essa obrigação de me enquadrar com duro determinismo e a qualquer custo. Estava ficando lúcida.

             Chá desgraçado...



 
 
Fheluany Nogueira
Enviado por Fheluany Nogueira em 14/10/2018
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