Fheluany Nogueira
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    Sob a Pele da Ovelha - CLTS 4
 


Confesso que cheguei a sentir medo. Era temor de um confronto. Não sabia se estava preparada. Muitas vezes, sinto-me fraca em confiar, em acreditar...
 

Estava orgulhosa por estar na Ilha, o pedaço do país mais distante do litoral e com acesso extremamente restrito. Era a primeira mulher da patrulha. A tripulação retornou ao continente depois de três dias e ficamos, eu, um funcionário da estação meteorológica e mais dois pesquisadores. Havia mais uns vinte moradores ali, nativos que não saberiam viver em outro local. A próxima viagem de reabastecimento ocorreria somente em seis meses. O fato de estar isolada do resto do mundo não me incomodava; afinal, havia o telefone, a internet e muita fé. Estar ali era o meu prêmio... ou castigo?

Foi uma experiência bem difícil. Chamei a primeira fase ali de esplendor; meu objetivo era descortinar o horizonte. Precisava de paz depois de tudo. Segui trilhas atrás do vulcão, vi brotar a samambaia-gigante nas encostas escarpadas, a tartaruga verde enterrando os ovos, as nascentes permanentes de água doce, a muralha de pedra da capelinha. Por conta da profundidade em volta da Ilha e das correntes marinhas do Sul era formada a onda-camelo, que aparecia do nada e passava levando tudo. Aos pés de enormes paredões, piscinas se formavam na maré baixa, então, de repente, uma sequência de ondas encurralava e varria o que estivesse por perto. Estava impressionada com a diversidade, com os morros e picos de expressivas altitudes.

Subi uma encosta, cerca de cem metros de altura, de onde dava para observar o posto, lá embaixo, com o casario todo branco. O solo era extremamente acidentado, nas partes mais baixas proliferavam centenas de blocos de pedras de todos os tamanhos que certamente rolaram em possíveis avalanches. Para quem vinha de um aglomerado urbano, tudo aquilo era um mundo novo, irreal. O esconderijo perfeito...
 
Os outros companheiros de jornada trabalhavam cada um no seu dever. O meu era a ronda. Precisava conhecer o território...
Naquele dia desobedeci à primeira das instruções básicas de como proceder na Ilha: não afastar da área habitada sozinha e quando o fizesse, informar. Meu guia, um dos nativos, pedira folga, estava muito gripado. Não consegui ficar no alojamento, parada. Peguei o revólver, a lanterna, a faca de marinheiro e umas bananas. E, assim cheguei às cavernas. Escolhi uma delas — a Pedra-Que-Engole.

O socavão me atraía. Estava curiosa. Sabia que o lugar era temido. Para chegar, precisei fazer uma descida de duzentos metros em uma encosta de declive acentuado parecendo mais uma parede. O que mais me aturdiu foi um cheiro muito forte de enxofre por toda a extensão. O pior cheiro que já senti. Saturava o ar. Porém não me fez desistir de continuar a jornada. O mar estava calmo e as águas chegavam em fluxo e refluxo, bem de mansinho.

Apesar de absorta em divagações, tinha os olhos grudados na entrada submersa da gruta. Com a minha proximidade das águas, o mar que estava manso foi aos poucos aumentando o vaivém das ondas, e assombrosamente o local ficou ressacado. Inesperadamente fui empurrada por uma carga d’água que me arremessou com toda a força. Senti-me sufocada, perdia-me; mas, não compreendi como, consegui transpor a arrebentação. Estava no interior da grota.
 
A caverna era a maior dentre muitas, com alturas internas variando de quatro a oito metros. O amarelo crepuscular foi cedendo, ao fundo, a uma perturbadora negridão, um ambiente solene e austero. Procurei a lanterna, não carregava mais a mochila. Tateei procurando-a. Mesmo temerosa, segui por uma inesperada trilha longa e estreita. Pareceu-me um túnel, semelhante a um forno muito baixo, escuro e apertado.  O chão tinha aparência lodosa. Ouvi, então, sons muitos estranhos e altos que pareciam ser de asas batendo, que os ecos na caverna tornavam impossível a localização. A imaginação começou a correr.  Os ruídos crescentes, em denso cicio acompanhavam-me na trilha. O tempo tinha um ritmo próprio naquele inóspito pedaço de terra. Queria voltar... e não. O ar úmido me saudava. Sentia que precisa seguir na vereda sem fim...
 
A cada passo tropeçava em buracos com promessas de escuridão e medo. Pareciam me dizer: “vem que somos túmulos entreabertos”. Um tombo. Erguia com dificuldade, quando surgiu das trevas uma luz fina, cristalina que me indicava um caminho sinuoso, que se dividia muitas vezes, criando um labirinto de possíveis entradas, todas indistintas entre si. Não sabia o que pensar, ou melhor, não pensava. Um vento frio e pálido, vindo não entendia de onde, trazia o cheiro da morte em pequenas partículas cadavéricas. Era o fedor de carne em decomposição, um cheiro quente, que quase causava vômito e parecia estar vindo de todas as direções, em esgotos naturais do trajeto.  O efeito era desencanto imediato de tudo, um desalento enorme. O mesmo cheiro que já sentira, que não mais me permitia acender os desejos, que me levara a juventude com o seus longos dedos e olhos brilhantes.

Foi crescendo em meu peito o temor de morrer ali, sozinha. Fui avisada para não sair assim. Mas eu ouvi? Misturavam-se vozes em turbilhão... Era inverno, escorregadio e perigoso. Estava fora de mim. Sentia que a morte estava apertando seu cerco, vinha em círculos amplos, de longe, sempre se aproximando. Vinha do fundo do vazio, como um corpo opaco patético em minha perseguição. Cansei. Um cansaço doido esparramado por todo o meu corpo, de muito tempo. Deixava um rastro enevoado em minha esteira, através dos túneis estreitos e contorcidos. Meu medo era de que não conseguisse prosseguir pelos meandros da trilha e sequer conseguir voltar...
 
Na grota, comecei a descobrir situações. Vislumbrava através dos muros cavernosos — cabeças pendurados pelas línguas, que se espichavam e se encolhiam, sobre um lago de sangue, olhos perfurados com ferro quente, entranhas permeadas por ganchos, rostos e lábios cortados por navalhas em brasa, entranhas tomadas de larvas, sinais de estigmas e visões horripilantes, bestas torturantes agindo como animais famintos. Deslizavam víboras e répteis entre corpos em colapso, cortados, esquartejados, queimados, feito monstros, numa infelicidade sem pausa; nuvens de vermes se arrastavam sobre eles destruindo tudo. O cheiro sufocava, indescritível. O burburinho que me acompanhava desde a entrada tornou-se a récita de profecias do mal, mesclada por gritos, alaridos, ranger de dentes, urros estridentes...

Sentia-me nua, açoitada. Meus pés se atolavam em barro pegajoso, os passos se tornavam cada vez mais difíceis. E os cães vindo. Os latidos se corporificando. Os cães...Em breve, sangue e barro, farrapos. Boca seca de muita sede. Sob clarões via focinhos, esgares. Os cães eram muitos e perseguem com obstinação. Temia perecer sob as mandíbulas deles. Atolava cada vez mais na lama fedida. Era a consciência atormentada, a gritar: “Ai de mim! Onde estou? “

Foi quando notei a cachorrinha que em casa não gostava de nós e vivia à parte. Era macia, bom o seu pelo. Não queria saber de ninguém. Viera por causa do bebê. E porque o tiramos, ficava latindo com raiva, numa acusação, bem de frente das pessoas. Não havia mais razão para ela ficar, com raiva, pelos cantos e latia a noite inteira. Latia, latia... Esqueci a porta aberta, o carro a pegou.
 
Em outro vão... um delírio? O filho de meu aborto ia revolvendo a terra, lento, debruçado, ensimesmado; entre larvas ia arrancando pedaços de unhas, cabelos e ossos torturados. Olhou-me, acusativo. Nenhum tremor no peito, o amor apenas acontecia, e havia complicações. Muitas... Se ele viesse agora, confessaria o meu amor. Haveria de encontrar as palavras e o algemaria para que não fugisse de mim. Nunca pude dizer a ele que o amava. Os carinhos, o cafuné, os beijos me malogravam, imaginados na ânsia, com força… com desespero… Naquela época vivia em atitude descompromissada, o álcool exagerado. O casamento se esfarelava em vozes alteradas. Morámos juntos, com rumos diferentes. Não pude segurar meu marido. Fiquei no escuro, em tormento e tensão, sem nenhuma possibilidade. Sozinha, comendo no bar, sorvendo das garrafas curtos prazeres. A cabeça girava com os movimentos súbitos. Percalços e voltas.
 
O ânimo começava a escassear quase devagarinho, imperceptivelmente; a princípio nem notei. Os olhos ficando tristes, os sustos, as contrações e a desconfiança que se instalava. Lembrei-me das caixas de papel, planos, cartas, notas, documentos, recibos — das fotos que ficaram sob a cama — um monte de coisas mortas, inutilidades, o passado quase enterrado. Lembrei-me de uma porção de coisas, todas passando atropeladamente pela cabeça. Imagens-relâmpago, fugas por terras mal sonhadas. Cada coisa somada distraía um pouco, mas no total era nada. Fez-se um vazio. Eu era uma mulher marcada sem amigos e isso não me doía, somente confundia a afronta, em mornidão.

Fazia tempo que andava em círculos. Não podia viver sem mentiras; não havia mais espaço para elas. Encontrei a verdade e ela é pior. As garrafas de vodca me chamavam; carnaval, as fantasias, os pandeiros. Bar, madrugada — escutar histórias de peixes estranhos, rios longos, até que chegava o tocador de cavaquinho e o outro. Chegou aquela hora que mais nada poderia acontecer, exceto o imprevisível. Como uma policial poderia ter esse comportamento? Era um risco cortante, as pernas em desacordo no ponto-equilíbrio do álcool. Dedos apontados, gestos bruscos — um bolo do estômago à garganta. Enquanto imagens se desdobravam a minha frente...

O ar me entrava pelos pulmões denso e duro. E o bulício pesado a doer inquietante. O mundo desorganizado, a solidão maior. Chamas grossas e pesadas formavam uma torrente, sempre alimentadas. Águas de fogo que desciam, cresciam engrossando. A terra abria o negro ventre, vagina partida e o mar ígneo a fecundava, em transe.  
 
Pesadas cortinas. Em casa, em nossa cama (que eu havia pago), o assombro: corpos entrelaçados... A sincronia era perfeita, completamente exaustos, abraçados. As respirações cansadas e ofegantes, os cabelos molhados pelo suor, e nos lábios um sorriso malicioso e satisfeito estampado.

Eu seria cúmplice? Deveria ter notado: meu companheiro, vestindo apenas cuecas, sentado confortavelmente no sofá da sala com latinha de cerveja na mão, assistindo futebol pela tevê? Nada mais interessante para ele fazer em nossa folga? Eu havia ido visitar minha mãe.

— Onde está meu marido?

— Na cozinha, preparando um tira-gosto. — Fui conferir e encontrei-o de roupão, cortando o queijo em cubos, que ia dispondo na travessa, já com fatias de salaminho. Ele, que nunca gostou de sequer entrar ali e nunca havia preparado o que quer que fosse para mim.

Para espanto meu, senti-me sugada para algum buraco dimensional. Estava anestesiada e distante dele. Via me precipitando no abismo do desconhecido, onde tudo é mistério, silêncio, isolamento e desconfianças.

Ele, meu homem, o pai da criança que me obrigou abortar. O outro, meu parceiro, a quem entregava a vida em cada diligência. Não podia deixá-los sair do leito, imóveis, para sempre. Um abismo quase sem fim. Perdi o controle e caí nesse mesmo abismo. Fui passando por cima das coisas, esparramando sangue e pó para todos os lados.

Revolvi o ouvido do primeiro com o cano do revólver, arestoso, perturbante. Até onde a bala alcançou? Como foi a agonia, os últimos instantes da semivida?  Até o pó. Dentro da cova imóvel para sempre cercado do nada. Inerte e amortecido como deixei o outro, arrebentado em estilhaços.

Dentro do breu, nós três, impossibilitados. Encurralei a ansiedade e chutei tudo com violência até que a dor percorreu-me o corpo em crispação. Levei a arma para a boca. Não tive coragem. Doía por dentro. Em vão as lágrimas tentaram escorrer pelos escombros da catástrofe.

Pensei nas aulas de catecismo: “o inferno é cheio de corredores longos, sombrios e com fogo eterno. Os condenados perdem a capacidade de sentir amor, felicidade, esperança”.

Eles erraram, por que eu haveria de pagar pelos pecados dos traidores? Malditos, porque me enganaram, deixaram-me no desvio e me causaram a condenação. Maldito aquele ímpio que me perverteu, aquele que me ensinou a pecar! Maldito…

Eu tinha habilidade e conhecimento suficientes para preparar a cena. A noite não acabaria nunca. Um matou o outro e eu nunca fui descoberta. Rostos mal delineados em volta, também angústia, passivos expectadores. Dois anos de processos. Eu fui a vítima... Tiveram pena de mim, mandaram o psiquiatra, designaram-me para a Ilha quando acreditaram que estava pronta. Sobrevivi ao caos.

Podia, ali, ver os dois homens: barbas arrancadas entre o queixo e a boca, como se faltassem pedaços de carne. Gengivas e dentes à mostra, olhos inchados e roxeados. Pregos fincados nas cabeças, sangue entre os cabelos, a escorrer pelas testas. Boiavam em excrementos e sêmen.
 
 
Continuava seguindo na trilha misteriosa, embalada pelos pensamentos e pelo vento finíssimo que me arrepiava, tocando os cabelos. Vento pálido que cheirava a morte, ressuscitava a dor.
Perdia-me entre túmulos… As coisas amontoadas em mim, o que ajuntei e o que ajuntaram. Muitas coisas foram tiradas, mesmo arrancadas com dor; outras foram se desprendendo devagarinho, de manso, foram ficando para trás para sempre perdidas.

Então ouvi a voz gorgolejante:
— Não dá para se salvar para sempre. Seu Deus foi embora, e não restaram nem aqueles anjos inúteis. Ah, claro, também tenho meus anjos inúteis, mas eles têm alguém para comandá-los. Além do mais, todas as almas que eu coleciono trabalham para mim, e logo você também o fará. Eu ia mandar um de meus servos para buscá-la, mas achei algo interessante em você. Vim aqui checá-la pessoalmente.

— O que está acontecendo? É uma brincadeira? — indaguei. Haveria alguém ali comigo? Sentia mais dor do que antes. Percebia que estava em um lugar muito pior.

— Brincadeira? E você acha que eu brincaria com o meu mundo? Aqui eu sou o arquiteto!

— Então me diga o que está acontecendo?  O que farão comigo? — Já me ressentia do isolamento a que estava submetida, soturna, arredia.

— Eu sou Deus agora, o Deus dos pecados, o Deus da dor, o Deus do sofrimento. Eu sou seu Deus — o demônio bramia e uivava como um cão furioso, proferindo terríveis blasfêmias!
 
O suplício interior era indefinível. Labaredas consumiam-me a alma. No corpo, eram incomparáveis as dores. Podia afirmar que todo meu sofrer até então era nada em comparação com o que ali experimentava. Tudo pode ser considerado um nada em relação ao agonizar da alma: é um aperto, um afogamento, uma aflição tão intensa, uma tristeza tão desesperada e pungente. Ao arrancar um filho, o espírito se despedaça, entretanto, naquele estado em que me encontrava era como se me arrancassem mil fetos. Nada se sobrepunha a tão grande padecer. Eu não via quem o provocava, somente a voz sinistra, mas sentia-me queimar e retalhar.

No lugar pestilencial, não havia consolo. Percebia-me em fenda cavada na muralha. As muralhas espantosas oprimiam e sufocavam mais que os remorsos. Cada ser, ali, era atormentado com o que pecou, de maneira horrível e indescritível. Compreendi que o Inferno existe.
 
 
 O pavor desmedido foi o combustível que me tirou imediatamente daquele lugar.  Sem entender aquela mudança abrupta, acordei com minha própria tosse. Aquele velho me beijava? Não era uma respiração boca-a-boca. Depois da massagem cardíaca, veio o vômito frenético. Aos poucos fui saindo daquele transe arrebatado, molhada de sombras, molhada de lágrimas...
— Eh, moça! Onde foi se enfiar, hein? Escapou por pouco.
 
 
Permaneci na Ilha, não tinha para onde ir. Era bom viver num lugar tão rude e de beleza indomável E, já familiarizada com tudo que me era oferecido, o medo foi cedendo à prostração. Era a fase do torpor. Depois daquela experiência, fiquei um pouco enferma. Muitas dores físicas e morais. Mantive o meu segredo, porém sentia-me perseguida. Parecia que já não havia lugar para mim no mundo, apesar de, a cada dia, buscar uma forma diferente para superá-lo. Tentava me recompor.

Vivi uma existência fria e metálica. A cada passo, uma encruzilhada, num susto perdido tentando estabelecer o contato entre o que eu fora e o que eu era, querendo saber em angústia que para mim não mais haveria capacidade de luta. Pressentia que já estava morta. Sei que não perdi a vida, para poder sentir e lamentar tudo o que fiz. O pior era saber que a dor seria sem fim, sem jamais cessar.
 

Não sou um animal frágil. Cheguei à plena consciência: sou uma predadora, tenho o inferno dentro de mim. Sei o que esperar... Sei que tenho de ir...
 
 
 
Tema: Inferno.
Fheluany Nogueira
Enviado por Fheluany Nogueira em 28/08/2018
Alterado em 24/09/2018
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