Fheluany Nogueira
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O Lugar Certo
 


                   Era a primeira vez que viajaria de avião, também conheceria uma grande cidade.

             — Não vou! — parei na porta, disse com um pouco de calma e muita psicologia. Dei alguns passos para frente, estaquei e repeti:
                   — Não vou! —fiquei nesse vou e não vou, reprisando a lastimável cena algumas vezes. Notei que em minha volta perdiam a paciência e senti-me empurrada para dentro do avião.

                   Fui me ajeitando no assento, lugarzinho apertado dos infernos…
 

                   Quando o avião começou a taxiar na pista, cintos de segurança são afivelados, a poltrona é nosso lugar. Agarrei-me a ela e comecei, estática, a rezar em voz baixa.  Quando levantou o voo, a Ave Maria passou para voz alta. O fone levava o som reconfortante do “jazz”, direto da cabine para nossos ouvidos. O som das turbinas é alto como o da música. O aviso de “no smoking” pisca à frente dos olhos. Pessoas conversam, algumas leem e na sua solidão assimilam, ou não, novas ideias. Um documentário sobre casas de férias passa nas pequenas televisões acima de nossas cabeças. O ar condicionado é bom. A senhora, na terceira poltrona atrás da minha, ronca. A comissária de bordo traz café, misto-quente e coca-cola. Não falei, não comi, não fui ao banheiro, não abri os olhos... simplesmente rezava. Quando alguém tentava falar comigo, respondia rapidamente:

                   — Não posso falar, estou rezando!
 
                   Quase fim da viagem, o comandante anuncia:

                   — Senhores passageiros, vamos passar por uma leve turbulência.
                   — Que é isso? — interrompi as orações.

                   — É quando o avião sacoleja um pouco — explicou-me o passageiro do lado.

                   — Ai! Meu Deus! Jesus perdoe os meus pecados! Vou morrer sem ter filhos ou marido!

                   Não era apenas eu gritando, tinha gente chorando, gente rezando, gente se despedindo, gente apenas gritando...

             Quando um sinal sonoro identificou que saíramos da zona de turbulência, gritos e rezas foram substituídos por palmas. O rapaz ao meu lado era o único que, o tempo todo, permanecera são. Perguntei-lhe como conseguira tal proeza.

                   — Vou lhe ensinar meu truque. Qual a diversão de que você mais gosta — perguntou-me sorrindo.

                   — Balanço. Um balanço preso por correntes a uma árvore. — respondi de pronto.

                   — Ficou fácil. Então, imagine que está em um balanço, atado nas nuvens. Você parece voar. O que vê? O que sente? — continuou o rapaz.

                   — Vejo a cidade como uma dança hollywoodiana. O bailado do trânsito nas ruas é sinalizado por lanternas humanas. Um finalzinho de tarde típico de primavera, um tanto descaracterizado pela falta de chuva. Sol brilhante e amarelo e um amplo e inebriante azul, com aquelas nuvens róseas para se adivinhar os formatos.

                   O embalo foi lentamente acalmando minha agitação: o rubor das faces, a respiração ofegante e o coração acelerado. Balançando nas nuvens, apreciando aquele céu, sentindo a brisa, senti-me agraciada, em paz. Senti-me grata. Senti que estava no lugar certo...

                   — Não. Eu não tenho medo de avião e foi por isto que peguei na sua mão. Qual é mesmo o seu nome? — escutei, voltando à realidade e devolvendo-lhe o gesto com carinho.



 
 
 
 
 

 
Fheluany Nogueira
Enviado por Fheluany Nogueira em 10/03/2018
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