Fheluany Nogueira
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Postergação
 
 
                       Cristina retirou com cuidado a caixa que colocou sobre a cama, em frente ao espelho. Admirou-a carinhosamente!  Olhar para aquele reflexo no espelho era como mirar a sua história. Sorriu... Com as mãos trêmulas, tocou o pequeno cadeado. Cumpria esse ritual há mais de vinte anos, desde a morte do marido, sem nunca conseguir coragem para abri-la. Após o primeiro acidente vascular cerebral, o marido, sem poder falar, indicava-a, entre convulsões e espasmos. Era dele a caixa, ela apenas imaginava o que continha.
 
                       Onze fivelas de campeão, forte, movimentos rápidos, um dos mais temidos dos rodeios. Tumultuava arenas inteiras e enchia as bocas de exclamações. Quando montava o boi, o peão se sentia rei, pulava, laçava, equilibrava-se com fidalguia. Teo e Pagode integravam-se na arena. Até que Cristina lhe anunciou a gravidez e a responsabilidade o obrigou a desistir da competição. Aposentou o animal também, levou-o para a fazenda e o deixou envelhecer e morrer com dignidade. A mulher acreditava que na caixa estava um dos chifres de Pagode. Teo o amava demais e, com certeza, guardara algo material dele. Além disso, era supersticioso — chifres trazem sorte!
 
 
 
                       Cristina carregou a caixa para a sala. Estava decidida, não postergaria mais. Destrancou o cadeado perante todos, que estavam na casa para as festas de final de ano. Nenhuma surpresa! Era mesmo o chifre do boi:
 
                       — Amava o bicho mesmo! Cadê a sorte que trouxe? Teo se foi, perdemos a fazenda...
Bom... Vocês estão aqui! E o chifre... do jeitinho que era, um pouco mais seco e bordas carcomidas.
 
 
                       Rostos expressivos admiravam a relíquia. Um dos netos pediu licença com o olhar e, curioso, ergueu, virou e revirou o objeto. Fechou um dos olhos, fitando-lhe o interior; posicionou dois dedos em pinça e fez força para sacar algo. Um maço verde bem enrolado. No ímpeto, o pai tomou-o e foi desdobrando, enquanto o menino ia retirando outras cédulas. Um e outro comentava:
 
                       — Ufa! Notas de cem dólares. Uma fortuna!
 
                       — Bem bom! Se fosse nosso dinheiro... Todo esse tempo guardado!
 
                       — Eh, mãe! Por que não descobriu esse tesouro antes?
 
                       Cristina debruçou-se sobre o chifre como se procurasse pedaços de si mesma, muda, ensimesmada. Enfiou a mão até o fundo, entre lágrimas e saudades:
 
                       — Era isso que Teobaldo queria avisar nos seus últimos dias! Tinha consciência dos tempos ásperos, das dificuldades que enfrentaríamos. O chifre de Pagode realmente protegeu a família, trouxe prosperidade.
 
 

 
Fheluany Nogueira
Enviado por Fheluany Nogueira em 25/01/2018
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