Fheluany Nogueira
Literatura e Emoção
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Feromônio de Alarme


 
          A chuva bateu de madrugada, fremente e rápida. As folhas ainda conservavam os respingos e o cheiro de terra úmida purificava o ar. O sol voltava a brilhar deixando a mata com um clima convidativo. Estava na cidadezinha serrana cumprindo um estágio rural, no meu quinto ano do curso de Medicina. Seria um passeiozinho menor no período livre.

          A estrada abandonada virou picada e logo acabou. Decidi subir o restante pelo meio do mato. Virou escalada. De repente, um barulho vindo dos ares aumentava gradativamente. Notei uma casa de abelhas, das que moram no chão. Vazia… Uma grande nuvem escura se aproximava. Eu fizera uma invasão perigosa. Não havia volta. Continuei, acompanhada por um séquito cada vez maior dos insetos. Logo perderam a cerimônia e começaram a picar. Não avistei nenhum espaço onde pudesse me abrigar. Puxei a jaqueta sobre a cabeça, tentando proteger o rosto, já sentia os lábios gretados, inchaço, dores, olhos turvos. Pouco adiante, perdi as forças. Como avançavam nas pálpebras, distinguia pouco à frente, tropeçava e cheguei a cair e reerguer-me, mais de uma vez.

          Então, vislumbrei, em meio às árvores, um homem que parecia chamar os insetos para si. Cruzou os dedos diante da boca como se me mandasse ficar quieta. Estranhamente, as abelhas foram saindo de cima de mim e se aglomerando naquele corpo, quase o recobrindo. Enquanto ele se afastava, fiquei ali entorpecida, desorientada.

     Não sei quanto durou o suplício. Os minutos foram pingando vagarosos. Minha cabeça doía. Sentia o suor escorrer, a respiração difícil, o ar denso, duro, pequenos espasmos nas mãos frias. Veio a imobilidade, veio o esquecimento…
 

       Meu corpo ardia em cada centímetro, a cabeça latejava… A claridade incomodava e lenta fui abrindo os olhos. A visão continuava embaciada, assim como meus pensamentos que não discerniam claramente o presente. Havia movimento de outras pessoas ao derredor. Um aspecto familiar veio se esboçando.

      Estava num quarto do mesmo hospital em que estagiava, ligada ao soro. A família, que viera da cidade onde morávamos, sem detença, veio com cobranças:

    — Não tem juízo, menina? Por que caminhar tão longe? Quase a perdemos… — Enfim, as explicações: moradores locais me socorreram e carregaram-me até onde a ambulância pudesse alcançar. No hospital, retiraram quase cem ferrões espalhados na pele, deram-me adrenalina e morfina de imediato. Passei por uma traqueostomia para desobstruir as vias aéreas e fiquei em coma por dois dias.

      Contaram-me mais. Havia algumas semanas que a região vinha sendo atacada por abelhas, maribondos e outros insetos.  Enxames haviam causado a morte de cães, bezerros e outros animais. Invadiram casas e se espalhavam pelas ruas. As pessoas estavam amedrontadas, escondiam-se, mas, mesmo assim duas foram mortas e muitas feridas.

     Era minha vez… As lembranças vieram incrivelmente claras, embora tiradas de pouca matéria. Quem era aquele ser que vi? Ele era o meu salvador! Ele, sim, quem teria enviado os que me trouxeram de volta para a cidade. Queria vê-lo, agradecer-lhe! Queria, sobretudo, entender como ele agira.

         As informações logo chegaram:
       
        — Chiquinho das Abelhas é conhecido morador. O apelido veio porque ele exerce domínio sobre abelhas, outros insetos e até cobras. Na redondeza, quando alguém precisa retirar uma colmeia ou caixa de marimbondos, ele é chamado. Chico chama as abelhas e elas o seguem, assentam em seu corpo como se essa fosse sua roupa. — matraqueou uma enfermeira, sem parar, ansiosa por ser a primeira a falar comigo. — Escapou por pouco, hein doutora? Se não fosse esse dom de Deus se manifestando!

      —Você ainda não o viu por aí? Ele bem que gosta de chamar atenção dos forasteiros. Vive com cobras enroladas no pescoço e insetos que o sobrevoam. Chiquinho já participou de vários programas de TV, adora se mostrar. Ele faz sempre apresentações nessas gincanas de escolas, em toda a região. Não perde um circo ou parque que apareça na Prata e redondezas.  Se tiver coragem, por alguns trocados, ele posa com a doutora para fotos. Nunca houve um caso das cobras picarem algum visitante ou morador, estando perto dele. É simplesmente inacreditável! — completava uma atendente.

        Foram muitas as visitas, a situação fizera de mim uma curiosidade naquele momento. As referências sobre meu protetor iam se tornando as mais variadas. Pareceu-me que o milagreiro era uma figura bastante popular, conversava com os bichos, dava-lhes comandos e era obedecido. As insinuações fizeram-me perceber que ele era admirado e desprezado, contraditoriamente. O dom do homem era considerado por uns como uma bênção, por outros, uma maldição. Porém, uma afirmativa era unânime: a habilidade era verdadeira. Era autêntica a capacidade de manipular insetos e serpentes.

          Eram muitas as ocasiões em que fora até uma roça para identificar o tipo de cobra que picara um trabalhador, e assim se aplicar o soro com anticorpos específicos. Os casos bizarros eram inúmeros e vinham bem detalhados para que eu não duvidasse da veracidade. Cada um relatava uma história diferente, dramatizando-a com ênfase nos feitos do ídolo:

           — Um menino de oito anos foi atacado por uma sucuri de cerca de cinco metros. A cobra o imobilizou, hipnotizou como se fosse um sapo e enrolou-se em seu corpo. Ele brincava na beira do rio com uma molecada. Aprontaram uma gritaria desesperada e apareceu ajuda. Os homens cercaram a bichona com enxadas e paus; tinham que evitar que o garoto fosse arrastado para o rio. Não sei dizer como o Chiquinho apareceu lá, mas foi falando com a cobra, negociou com ela e conseguiu trocar a vítima por uma galinha. Ainda deu um beijo na diaba, antes que ela caísse na água. O moleque ficou bem, meio castigado e muito assustado. A mãe que aprontou a maior zoada quando o encontrou. Não é de rir não…

     — Até minha casa já foi livrada de um enxame de marimbondos alojado em uma colônia no teto da varanda, logo na entrada. Incomodavam muito. É tradição que essas caixas trazem dinheiro para os moradores, mas não dava para aguentar mais. Meu pai buscou o Chico. Serviço limpo, sem fumaça, sem panos e paus, nada de bagunça, durante o dia mesmo. É um bate-papo e os insetos vão embora.  

        — No bairro do lixão, abelhas ficaram no meio de carcaças de geladeiras, armários velhos e outras sucatas. Atacavam quem se aventurasse pelo espaço. Chiquinho foi lá e deu um jeito. Só não deixa matar nem uma formiga, junta tudo de uma forma que só ele é capaz e leva para algum lugar em que ninguém seja incomodado.

      — É, respeitar a natureza, ele respeita. É engraçado, porque o Chico, também, é um bicho do mato: arisco, desconfiado… Não sei se ele nos afasta do perigo ou coloca a gente em risco atraindo a bicharada. Nunca vi tanta amolação num só lugar.
 
          Assim que tive alta fui visitar o paladino em sua casa. O herói era muito diferente da imagem que eu criara, física e intelectualmente. Estatura bem pequena, de grande apenas as mãos e os pés descalços, as pernas curtas em arco. O perfil era de índio, cabeleira sebosa e despenteada, risadinha asmática, voz travada, insegura. Tinha mais de quarenta de idade, entretanto conversava como uma criança de seis anos, sem nenhuma instrução e com aprendizagem limitada. Não pude manter com ele o diálogo que idealizara. Nunca poderia avaliar sua filosofia de vida, captar os seus mistérios… Apenas obtive dele, ao vivo, uma demonstração de seus poderes especiais, o magnetismo que exercia sobre os animais.

         Chiquinho mantinha, no quintal da casa em que morava com a mãe, um pequeno zoológico e maravilhou-me com o trato que dava aos animais. Uma verdadeira doidice! Eram iguais, a intimidade entre eles estava além da compreensão humana. Essa naturalidade perturbou-me em excesso. Magnetismo? Hipnose? Uma vontade firme ou uma fé inabalável? Que fenômeno ocorria ali? Como um fraco dominaria o mais forte daquela forma? Eu encontrara assunto para uma possível tese?

       O dia-a-dia me fez desistir de racionalizar aquele dom sobrenatural. Voltei para a escola, concluí o curso e fui fazer residência em São Paulo, sempre acompanhando o itinerário de Chiquinho. Devia-lhe a vida e não podia abandoná-lo. Retornei às pesquisas, viajei até a Prata, outras vezes, a passeio e para me aproximar daquele vulto. Também, havia feito boas amizades na cidade e as alimentava com a facilidade das redes sociais. Assim não me faltavam notícias.

 
     A mãe de Chiquinho faleceu. Ele ficou sozinho e desnorteado. Alojaram-no em uma instituição que zelava de idosos e pessoas como ele. Fugiu e foi para o mato. Não ficaria onde seus companheiros não pudessem estar. Aparecia na cidade com os bichos, ninguém conseguia chegar perto. Enxames de insetos e ofídios surgiam ali como nunca, eram situações incomuns. Ele sofria por alguma rara variante.

    De repente os papéis se invertiam. Escolhi entrar completamente na vida de meu salvador, mesmo ficando exposta a questões sobre-humanas. Eu não apenas acreditava que poderia ajudá-lo, como também me instigava a ideia de que essa nova realidade poderia ser um farol que iluminaria aquele profundo mistério. Senti que precisava de mim, do meu apoio. E foi o que ocorreu. Parti para a Prata.

 
         A sorveteria estava tomada pelas abelhas. Não puderam abrir as portas. O proprietário, agitado com os zumbidos lá dentro, explicou-me:

      —O Chiquinho, ontem, quando foi embora, deixou para trás uma abelha rainha, talvez de propósito. Está maldoso — tirou o chapéu da cabeça,concentrou, olhou para o alto, fez orações. — Só ele pode resolver isso, mas, veja a moça como ele está — indicou um banco da praça.

     O herói parecia alienado a tudo, cercado de todo um arsenal: cascavel, coral e jararaca se movimentavam em volta de seu ombro e pescoço. Com portas e janelas apinhadas de curiosos, ele ficava alisando e conversando com as cobras e abelhas sobrevoantes. Formigas em correição completavam o cenário. Ninguém se aproximava.

        Vesti-me com toda coragem, muito ressabiada e tentei falar com ele:

        — Hoje mesmo elas vão embora, vão sair antes da noite pelos vãos do telhado. Igual à mãe. O povo não quer a gente mais — foi a resposta que obtive. Ele estava distante e tenso. Não retribuiu o meu sorriso quando o cumprimentei.

       De um velho embornal, ele tirou uma latinha com tampa e, na maior inocência, abriu e cheirou. Era cola de sapateiro.

         — Como conseguiu isso? — perguntei sobressaltada.

      — O Tião me arrumou um pouquinho de cola, é pra eu colar meus tênis lá em casa — respondeu acrescentando que não deixava o sapateiro fazer o serviço porque os sapatos eram muito velhos.
 
      — Faz quanto tempo que tem cheirado cola? — procurei saber para pensar que atitude tomar.

      — Desde que a mãe morreu. Fico melhor, nem tenho fome.

       Tanto querer. Tanta saudade. E tanta dor, tão perto da superfície. Comecei a entender o que vinha acontecendo. As minhas últimas pesquisas sobre Chiquinho encaminharam-me para os feromônios. A química dele era peculiar, fator suficientemente forte para lhe tumultuar as emoções.  A perda sofrida estressou-o e alterou todo o seu poder, como um ímã desmagnetizado: enxames mais frequentes, picadas, presença de víboras, enfim, as reações das pessoas e animais em relação a ele estavam desorganizadas. Tudo meio às avessas, exceto pelo próprio Chico que continuava ileso, mas pasmo pela desobediência de seus bichos, aqueles que mantinha em casa, como domésticos. Contou-me que pedira a duas das cobras, muito venenosas, que o picassem. Queria morrer para reencontrar a mãe, mas não o atenderam. O recente hábito de cheirar cola agravava toda a situação. Vulnerabilidade e desequilíbrio.

 
       Francisco gerava feromônios altamente potentes baseados em seus sentimentos, que afetavam outras pessoas e animais, alteravam as emoções dos outros, em torno. Inicialmente, ele não tinha controle, esse poder faria com que todos dentro do alcance ficassem com o mesmo humor. Podia, ainda, controlá-lo até certo ponto, mas ocorriam lapsos quando suas emoções eram particularmente fortes. A cidade da Prata estava revoltada, impaciente, incitada ao medo.

         A solução seria conter as causas do fenômeno. Chico precisava de carinho e atenção. Encontraria na cidade quem substituísse a mãe? Era necessário que se instalasse a rotina anterior ao falecimento, que lhe garantira segurança.  No Lar, dialoguei com autoridades, argumentei com veemência. Discutiram entre eles várias possibilidades. Não poderíamos tirá-lo da Prata, isolá-lo seria dar-lhe uma sentença de morte. Terminaram por se lembrarem de uma senhora que teria condições de dedicar-se a ele com certa tranquilidade. Moraria na mesma casa, onde ele vivera desde o nascimento. Os costumes seriam mantidos, voltaria ao caminho da infância que nunca atravessou.  Foram tomadas as providências.

 
        A vida terminaria voltando ao normal, se é que se pode afirmar que perto de Chiquinho houvesse normalidade… Poderia retomar a minha vida, sem dúvidas, contanto que estivesse sempre preparada para emergências. E, também eu não queria parar de ver Francisco, queria continuar a conhecê-lo, almejava o seu encantamento.
 
         — Eu quero um abraço! — Chico estendeu os braços para mim em despedida.

         Nosso momento de intimidade, passamos da posição de desamparo para a de confiança. Quando nos abraçamos, fiquei surpresa por descobrir que podia envolvê-lo completamente nos meus braços — um poder imenso em uma alma tão simplória!

         Do carro, olhei mais uma vez para o quintal, através das cercas rudimentares. Chiquinho das Abelhas dialogava com uma jararaca dependurada no pescoço. Esquecera-se de mim. Estava em seu mundo.



 
Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.


 
Fheluany Nogueira
Enviado por Fheluany Nogueira em 10/01/2018
Alterado em 10/01/2018
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