Fheluany Nogueira
Literatura e Emoção
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Coração Cabeludo
 
 

2017
                   “Quem sou eu? Meio demônio, meio humano? Beliar estava no alto da serra. Perscrutava cada detalhe da paisagem. “É hora de parar um pouco, buscar uma razão para prosseguir ou... descansar”.  O sopro quente do ar sussurrava: “Não durma nunca. E jamais fique de todo desperto — encontrará a verdade. Ela é pior do que isso tudo”.

                   O fazendeiro podia avistar as cidades vizinhas, a sua sede, o afogadilho do dia-a-dia, o horizonte esmaecido. Estava no Pico do Espinhaço. De um lado o despenhadeiro. Do outro lado a estradinha tortuosa, que subira a cavalo, cruzando os cafezais. O neto ficara para trás, atrapalhado com a inexperiência das rédeas. Logo o alcançaria. Queria que o rapaz conhecesse bem aquele lugar, simbolizava o trono da família, de onde lhes vinha o poder. Não lhe confessaria os segredos mais negros, seria apenas uma conversa longa e explicativa.

             Aquelas encostas tomadas por muros verdes orgulhavam o proprietário. Os cafeeiros pareciam sentinelas irrequietas ao longo de faixas, os ramos balançando animadamente ao vento como se dançassem ao ritmo das máquinas e dos homens. Nem sempre fora assim. Mãos ferrenhas tiveram que impor uma marca. Assim que a colheita estivesse na Cooperativa, comemorariam o aniversário do único neto, que recebera o seu nome.  Era da linhagem, mas ele tivera apenas filhas e netas. Insistiu muito para que escolhessem outro, mas não aconteceu...

                    O pai, também Beliar, pouco lhe ensinara. Moldou o mundo a sua volta do jeito que quis. A única questão era que este mundo, para ele, era álcool, mulheres, jogo e mentiras. Se os seus olhos duros se fixassem no filho, bastava isso para que ficasse entendido que fizera algo a descontento, que parasse de rir ou que saísse. Não era sempre que conversavam, no entanto era comum o menor ouvir dele:

                      — Estou tentando falar com você de homem para homem. Será que consegue dar conta disso?  Não acredito que é meu, seu marica! — incansável nos insultos.
Não se pode amar alguém sem ter medo dele também. E, talvez uma pitada de ódio. Com as lembranças vinha um quebranto, um cheiro quente que causava náuseas. Pela primeira vez, Beliar constatava o escoar do tempo. Sentia um aperto largo sobre o peito cheio que levava a alma para onde não se apercebia o corpo com seus resíduos e mágoas. Era a morte apertando o cerco. Vinha em espirais amplas, de longe, sempre se aproximando...

                       Um vento pálido agitava as folhas rígidas dos cafeeiros, fazendo os galhos estalarem. A terra cheirava a calcário e a ferro. As grotas da serra diziam “vem que somos túmulos abertos”. Parecia ter sido ontem. Estava com dezessete anos, e então se tornou o que era hoje. Aconteceu tudo ali mesmo. Desalento enorme.
 
 
1967

                         O menino espiava o terreiro de chão batido com os grãos espalhados em camada fina. Chuva pesada era prometida. Feriado, nenhum empregado. O pai chegara do boteco a uma da madrugada.

                         — Vá enleirando o café! Já vou ajudar... — a voz pastosa, com suas promessas de escuridão e medo, acordou o filho. — Ei, molenga! Leiras altas no sentido do declive!! 

                         — Ih! Pai... Tô com sono.

                      — Não adianta chiar. Tem que cobrir também! — o pai retrucava impaciente, com estupidez no semblante. — A chuva tá perto! Vá na frente!

                     O rapazinho tremia a cada relâmpago. Fincava pernas com força no chão. O vento forte revolvia-lhe os cabelos. Não sabia por onde começar, mas teria que fazê-lo. Medo da surra. O pai era bravo, bebeu...  Tanto café!

                   O garoto começou a rodar os grãos com a energia que a magreza permitia. Lembrou-se das muitas surras. Humilhava-se, pedia perdão, invocava santos. Os rogos se perdiam entre os estalos da correia e as palavras raivosas do pai. Se o pai não viesse logo, a sova era certa. Era trabalho para até o dia chegar. Conseguiria sozinho estender a lona? Cadê o pai?

             Foi quando ouviu uma cantarola do outro lado do terreiro. Cantiga engrolada, palavras carcomidas. Ventania, poeira. Estreitou os olhos...  O pai já havia feito uma grande leira!? Nem o ouvira os palavrões... Não, não era o pai. Mais baixo e troncudo aquele. O pai também não era para canções. Estava confuso. Chegou mais perto e gritou:

                 — Quem é o senhor?
 
             — Vim ajudar o menino. Logo tá tudo pronto. O capeta me mandou.


           — Ó o respeito com o patrão. Vamos então — respondeu o garoto.

                A voz fanha voltou para o canto escorrido, lamento. A presteza não condizia com o velho. Parecia ter motores nos pés e braços. Até o menino ganhou forças, mas mesmo assim, o misterioso ajudante amontoava o triplo, ou mais, de café que ele... Em pouco mais de uma hora, o rapaz voltou para a casa. Os primeiros pingos caíam ameaçadores. O pai, que cochilara na velha cadeira de balanço, despertou esbravejando:

                 — Como? Já aqui, mariquinha? E o café? A chuva vai estragar tudo, bosta. Ah! se arder...  Não deu tempo de amontoar. Veio embora por causa de uns pinguinhos? Dormi sem querer... Vamos terminar, merda. Dá tempo.

            — Não, pai, nós enleiramos, cobrimos com os encerados. Não vai molhar! — retrucou o menino em tentativa de acalmar o bruto.

                   — Como “nós”?  Quem ajudou você, pirralho? — retrucou o pai admirado.

                   — Uai! o homem que mandou. Que velhote bom de serviço! O aguaceiro tava esperando a gente terminar.
 

               — Como assim? Não mandei ninguém. Tá mentindo! Não deu tempo. Quero ver. Trabalho de três ou quatro horas, pra dois terreireiros dos bons.  Agora um moleque e um velhote, como você disse, não dão conta não...

            O bronco pegou um guarda chuva no canto da dispensa e saiu blasfemando e arrastando o filho pela mão. Encontrou toda a colheita organizada com precisão. As leiras viradas como deveriam, cobertas com o plástico preto. Os montes de café mais adiantados na secagem também vedados. Nem ele, sóbrio, faria tudo tão de acordo.

              — E como pagou o velho? — o pai ficou aparvalhado.
 
              — Ele disse que não precisava, devia isso pro senhor. No momento certo, cobraria, de mim, um favorzinho.  Convidei-o pra casa, a chuva vindo. Agradeceu. Não entendi. O velho fala umas coisas de louco. Disse que estava livre das coisas deste mundo. Não entendi!— comentou o garoto.


                — Qual o nome dele? — quis saber o pai.

            — Perguntei, pai. Respondeu com outra pergunta: “qual o seu?” Eu lhe disse e... que esquisito! O velhote falou que gostava muito do meu nome, que o chamasse Beliar também. Doido mesmo!

               — Encrenca vem por aí! Como ele era? — o pai mais irritadiço.  

            — Não sei explicar.  Parecia o tio Tonico, um pouco. Não sei... — o garoto tentou explicar ainda.
 
                   Nas semanas seguintes era só esse o comentário na família e na vizinhança. O acontecido era uma charada. O rapaz recontava a história, descrevia o ajudante, ao seu jeito... O que escondia é que se estabelecera uma relação entre a figura e ele. Pequenas fugas intermitentes.

                   Sentavam-se no terreirão, molhados da chuva ou do luar, sombras penando. Levados para o sem rumo. O novo companheiro contava histórias, encantava-o. Mostrava-lhe o futuro, ia montando um cenário muito lógico. O garoto sentia-se liberto, livre da timidez. Aquele apelo vindo de fora lhe trazia o mundo e a sensação perigosa de que o pecado era fascinante. Outras vezes, cara fechada, não mais amigo, integrado ao vento, o homem era ameaçador, quase feio:

                  — Você já matou?

            — Esmaguei um louva-deus. Barata, grilo, conta? Prendi um monte de mandruvá no vidro e ia fazendo os bichos estalar com um espetinho. — respondia o pequeno.

              — É. Tem vontade de matar... — o velho ia instruindo o menino, que vacilava entre o medo e o fascínio. Pouca coisa. Era a preparação:

                    — Não existem limites. Não existe para você o que é possível e o que não é. De agora em diante serei sua sombra. E você será consolado. Não precisa se afligir. Tudo no tempo...

                    O pai continuava agastado, talvez envergonhado pela tarefa que dera ao filho, por tê-lo abandonado no serviço. Andava nervoso. E não emendava, com bebedeiras e maus-tratos às filhas, à mulher, sobretudo ao garoto. Injustiças se repetiam. A situação degringolava: a fazenda descuidada, falta de dinheiro e de crédito, dificuldades em conseguir trabalhadores. Maus amigos e maus conselhos...
 
                Os primos fizeram uma festinha surpresa para Beliar, dezessete anos.  Música, salgadinhos, as horas correram. Cansados de esperar pelo chefe da casa, resolveram cortar o bolo:

                   — “Parabéns a você, nesta data queri...” — a porta da sala é aberta de supetão, a gargalhada incomoda a todos.

                   — Festa para o macho!? — o homem chacoalhava o litro de pinga, bebericava no gargalo, sorvia o curto prazer, xingava, ria... Abraçava um e outro, quase os derrubava no desequilíbrio do corpo. Espetáculo constrangedor. Acabou por entrar para o banheiro, batendo a porta com violência.

                   O jovem Beliar, a custo, tolerou os vivas, os cantos restantes e saiu da sala dissimulando o choro. Voltou em minutos intermináveis, gritando, desesperado:

                      — O pai... O PAI... SANGUE — as palavras saindo da boca, fragmentadas, todas de pânico.

                   Pela porta escancarada dava para notar o lavatório quebrado, a risca sanguinolenta na garganta, o corpo na poça rubra. O filho suava, não raciocinava com clareza e, interrogativo, olhava o cubículo como de uma janela à distância, perplexo. Assim descobriu que o ódio podia dominar a dor.

                          A angústia delineava cada rosto dos passivos expectadores daquele mistério. Petrificados, olhos faiscantes diante de um argumento sem réplica. Nada a ser feito. Desgastado luto. Saudade e dor mescladas de alívio.

 
 
                    Em um domingo qualquer, família reunida. A avó trouxe a velha caixa de fotos amarelecidas. Cada um via uma delas e passava para o outro...
 
                    — Mãe!! Olha o velho que me ajudou no terreiro! É parente! Por isso não cobrou. Por que nunca o conheci? AQUI, vó, tia...

                 — Não pode ser! É o seu avô! Faleceu faz trinta anos, antes que você nascesse. Seu pai devia ter a sua idade... — choramingou a avó, ruim de contas.

                 — Triste foi a morte desse. Um acidente como aconteceu com seu pai. Caiu no curral, o cavalo o pisoteou no rosto. Arrebentou a cabeça. O caixão teve que ficar lacrado, não pudemos abraçá-lo em despedida.

                    Beliar se enojou. O retrato caiu no vomitado, rolou entre as garrafas, achou um vão, estatelou-se diante de todos os olhos. Era uma tortura. Ninguém conseguia arrancar-lhe o papel sujo das mãos:

                       — Foi ele mesmo. Certeza!!!! — confirmou o rapaz — Tenho conversado com ele quase toda noite. É estranho porque é como se ele estivesse vivo, do meu lado, orientando, determinando.

               Espanto geral: assombração do avô! Vinda constante? O que queria? Descrença. O menino sofria com a perda do pai...
 
                   Porém, o conselheiro noturno permaneceu, pesadelo e sedução. Agora se revelava. Beliar nunca soube exatamente como a nova presença era, às vezes vinha na forma do avô ou de homem qualquer, um anjo ou um bicho, ou...  Escutava-o aflitivo, sempre a lançar chamas grossas e pesadas para uma só direção: riqueza e poder. Amadureceu forçado, ajudou a mãe na administração dos bens e em seguida a substituiu. Vivia em inquietude inexplicável. A vida, externamente, corria dentro da mais absoluta ordem. A forma como os negócios se resolviam, somente ele e o diabo conheciam. Instruções e precauções constantes aos ouvidos. O mundo não mais era o mesmo.

                  A torrente, sempre alimentada, engrossou-se com o casamento — esposa conveniente que deu a Beliar mais amor, mais dedicação, mais obediência, mais terras, mais influência, três filhas e na quarta gravidez:
 
 
 
1982
 
               — UM ALFA POR VEZ! — a voz cavernosa cobrava seu tributo.
               Sem camuflagem, sem carisma e sem graça, o Anjo Caído surgiu: totalmente calvo, cicatrizes espalhadas no corpo vigoroso, asas como fachos de luz sólida. Locomovia-se balançando o grande tronco mole. Podia-se ver por dentro dele, a escura massa de que era feito, em convulsão. E os olhos, quase humanos, gosmentos, borbulhantes. Ousava protegido pela repugnância que provocava. O asco impedia que fosse tocado. Beliar aprendera a conviver com aquela criatura que conspurcava e aturdia.

           — Está me forçando a ser o que não sou. Não me force. — o humano implorava. Não sabia se estava vivendo dia ou noite.

           — Tem livre-arbítrio. Ele ou você? — o demo sorria com deboche, pronunciava as palavras em tom retumbante:

               — Quer semiviver em angústia?
       
              — Eu não quero matar — respondia o homem como se estivesse em outro plano,
vagante...

             — Não será a primeira vez. Lembra como socou a cabeça do seu papai no mármore. A mão dele tremia ao erguer a navalha. O bêbado olhava para você e me via. Nós éramos um só.  Prolongamentos em caminho paralelo. A violência nos consumia.   Sombras preenchiam todo espaço visível com borrões de silhuetas e seu pai, pasmado, não conseguia discernir quem era quem. O sangue jorrou do pescoço, borrifando.  Ninguém estranhou a sujeira no seu corpo, nas suas roupas: “Pobrezinho, abraçou-se ao pai agonizante”— o sorriso transformou-se numa gargalhada enquanto se desprendia dele uma baba raivosa.
 
                   — Eu subsistia... Não queria... — Como por automatismo, as imagens iam ficando cada vez mais nítidas. Beliar sofria. Acompanhava-se de uma legião de mágoas, sentia-se entorpecido, enjoado e deslocado. Titubeava:
                  
                    — Não, não matarei meu filho nem nascido! — repetia atordoado.


                   — É mais fácil agora do que depois de conhecer seu rosto, seu sorriso. — Em imenso círculo de perversidade, Satã compelia o homem a consumar um ritual derradeiro de uma cadeia irremediável a se cumprir.

                   — A escada é perigosa. É deixar a mãezinha cair — ensinava irônico.

                   Havia muita coisa em jogo. Humano e tentador sempre terminavam por combater lado a lado, golpe por golpe. O vestido longo varria o chão. E se fez aquele espaço para os pés voláteis. Sem compromisso ou intenção. As faces da mulher contorcidas pela dor. O sangue formou poças sob o quadril, em volta das pernas. O marido desceu os degraus em correria, ajoelhou-se ao lado dela, segurou-lhe a mão. Já clamara por socorro... Inevitável. Ela não mais procriaria...
 
 
1890
                       — Quantas meninas terei? Preciso de um herdeiro. Se Deus não o traz, que seja o Diabo! — palavras ditas ao acaso ou para o caos. A resposta...

               O Coronel prendeu a respiração. Uma paixão pegajosa foi tomando conta dele de mansinho. Um perfume vazava das paredes, ameaçava tomar forma de algo, engoli-lo. Fome de bicho. Petrificado esperava...

                A mulher intuiu o desejo, guiou o macho para dentro de si. Agasalhou aquele corpo com calor diferente. Nunca se entregaram assim. Um homem e uma mulher se redescobriam. Tinham vindo não sei de que mundo. Mergulharam em rio manso e largo, cujas águas guardavam todas as vontades. Perderam o tempo, o tino, as distâncias. O sangue era pura fervura. Claridades-sombras estendiam caminhos sempre cada vez mais para dentro. Muito mais para dentro.  Era o aviso de que geraram um filho homem.  E assim como os cheiros e as cores nutriam os desejos, sons ecoavam na mente masculina: “Tem um preço.”  “O menino terá o meu nome”.

               Era definitivo de todo e aceitamos de comum acordo. Acontecendo natural, como a coisa mais esperada. Sem pânico, sem remorsos.  Gosto amargo-e-doce dessa criação.

 
2017

                    — UM ALFA POR VEZ! — a dor funda trazia Beliar para diante do pouco que restava de si mesmo e das imagens vívidas que o consumiam. Procurava situar-se e encontrava um tempo áspero. Ele engoliu um bolo espinhento de saliva. Trazia a expressão esvaziada.
                           
                   O rapaz desceu do cavalo. Entreolharam-se. O velho carregado de lembranças, de uma luta que ficou no passado, mas ainda marcava o presente. O vento chicoteava quebrando o silêncio.

                   — Que conversa é essa, vô? Por que aqui?

                   — O dia chegará em que ciência, religião, matéria e espírito, simultaneamente revelarão seus propósitos secretos para a humanidade — o avô profetizou e complementou:

                    — Eu não sou um obstáculo que você precisa transpassar. Será o meu substituto. Mas não sei se está pronto. Quero ajudá-lo. Não sei se hoje deve ser o dia final — sorriu com brandura.

                   O rapaz nada compreendia. O velho falava com ele, não o escutava. Olhava assombrado para a borda do penhasco, notava apenas um vulto e sentia um desejo incontrolável de empurrá-lo. Como podia ser? Era uma visão ou o avô? Amava-o e o queria morto? Era um pandemônio.

                   Beliar-avô, por um segundo, desviou os olhos para a ribanceira, quando sentiu um forte impacto atingir o queixo. Levou alguns instantes para que percebesse o que acontecia. Tentando ignorar a dor, equilibrou-se, girou a perna, atingiu o oponente, que cambaleou, quase caiu. Olhou para o neto furiosamente. Gotas de suor desciam-lhe pelo rosto. Chegou a sentir uma ponta de culpa. Era o destino.

                    — É o demônio! Vou acabar com você! — o jovem vociferava mantendo os olhos fixos no alvo. Enxergava nele o mal, não conseguia se refrear. Irracional.

                      — Sou o seu avô! Calma! — preparava-se para receber o próximo golpe. Sempre teve medo de estar na situação que se apresentava agora.

                     — Vamos resolver isso de uma vez por todas — a voz do garoto soava fria, diferente de sempre. Foi ganhando estridência a cada fala truncada:

               — Revide... Revide, seu maldito! Um de nós deve... sumir... Vamos... lute... — bateu-lhe no peito, chutou-lhe as costelas. — Covarde! Velho covarde...

               O ataque seguinte foi tão rápido que, mesmo estando alerta, Beliar-avô não conseguiu impedir que o lábio inferior fosse atingido. O gosto de sangue veio logo a seguir. Por reflexo, retesou-se em preparação para novo impacto. Foi neste momento que decidiu acabar logo com aquilo, antes que o pior pudesse acontecer.

                   O moço, certamente, não estava preparado para o que viria a seguir. O velho avançou contra o rival, que se desviou do ataque surpresa, contra-atacando em seguida. Engalfinharam-se. Os dois caíram. Ouviu-se um barulho abafado. A cabeça do rapaz batera na pedra. A luta chegou ao fim. O capim dobrado, sangue ríspido, célere porejando em fixo desastre. Espanto e dor. Beliar certificou-se que o coitado não respirava. Mudo, confuso. Estupidamente imprevisível. Os fatos seguiram em direção errada.

               — Eu sei... — o Demo apareceu na forma verdadeira, soltava chispas — Eu lhe dei arbítrio mais uma vez. Não queria deixar as emoções atrapalharem. É o responsável por ter escolhido essa opção. Você sabe que poderia ter sido diferente — ele encarava o humano, rindo, rindo...

                    — UM ALFA POR VEZ! As regras foram quebradas, o velho matou o jovem — puro sarcasmo. A missão continua com você — vaticinou o imponderável.

                          — Você teve forças para mais um gesto. Então eu vim. Serei sempre a sua sombra e você será consolado — o demo repetiu a jura. E, integravam-se de novo, para a completa desarmonia.

                        Em transe, Beliar aproximou-se do abismo, erguendo o corpo do neto. Arremessou-o no ar como um boneco de pano. Parecia uma roupa que se desprendia, despencava com os braços e pernas abertos, girando, sem parar. Perdeu-se no vazio verde, sem visibilidade nenhuma. Nuvens negras na tarde de tempo indefinido. Acidente triste.
O sobrevivente montou no seu cavalo, puxou o outro. Evasivo, sem deixar pistas. Encheu os pulmões, só via o horizonte mais esmaecido, fino. O aperto no peito, agora, mais largo. Teria que explicar. Montanhas ruiriam na sua boca, lançaria destroços sujos pela língua, cuspiria larvas. Envolveria todos em tramas de verbos. Inquestionável. O desespero perdia-se nas últimas luzes da tarde.
 
                       Temerosa busca. Somente no dia seguinte, resgatou-se o cadáver para o enterro cristão. Resultado do trabalho de uma equipe por horas e horas. Estava bem mais abaixo na encosta, de bruços, com a cabeça mais baixa do que os pés e o rosto enterrado na vegetação rasteira.  A carne a se acinzentar, com manchas esverdeadas, sinais de lividez nas juntas. Ossos expostos, crânio rachado, olhos estatelados, vidrados. A boca aberta deixava ver a língua enrolada para dentro, macilenta como uma lesma. Terra e sangue formavam uma argamassa ocre e consistente. A perícia não encontraria sinais de luta... Outro caixão lacrado.

           
                  Beliar quedou exausto num desvão, estava perdido em contradições. Sentia pejo de si mesmo. Foi aí que se olhou de frente: o Homem e o Mal, que insistia em povoá-lo. Não perdera de todo a identidade humana. O diabo instalara-se simplesmente em sua cabeça. Vinha em pedaços, em momentos, em épocas, em contornos. Acompanhava-o em fatos, acontecimentos, sem uma sequência temporal. Percebia-se subitamente incapaz de resoluções. Houve um momento de plena estatização. Como lutar contra/com as trevas? Os pés se afundavam no barro pegajoso. Sentia-se vivente e cativo. Somente a voz conhecida, em ondas corporificava: “Controle! Controle!”.


                  O jogo das negativas, e nesse jogo o tempo em atropelos passando, cada minuto uma batida mais forte do coração convulso. A angústia seca foi estalando sob os passos de Beliar. O antigo eco lhe repôs a frieza dos pensamentos. Casa cheia, imprensa... Precisava manter a firmeza. Devolver às coisas a dimensão própria.Controle! Controle!”. A dor mornizou. Houve paz. O senador retornava ao movimento.
 
                   — Viajamos logo depois do almoço. Malas prontas? Em três dias, tenho reuniões importantes na capital — orientou a mulher com riso breve, educado. Era como um relógio regulado com precisão, implacável muitas vezes, usando o dom que o diabo lhe dera. O senador Beliar continuou o monólogo:

                    — Estão quase se matando lá para manter o poder!  Afinal, tenho posição neste país — espetou o dedo no ar.

                    Em seguida, deu sinal para que a esposa saísse do escritório. Antes, ela lhe passou as novidades da família: a neta mais velha estava grávida. Se fosse menino, teria o seu nome. Feliz e, ao mesmo tempo, tenso, o homem pediu privacidade para algumas ligações:
 
                — Alô! Consultório médico? — Ele se identificou. Um prolongado silêncio.


                — (...)

                — Sim. Pretendo continuar com a terapia.

                — (...)

                — Segundas e quintas, a partir da próxima semana. Confirmado. — Um frêmito percorreu-lhe a espinha. Não vomitaria os seus segredos no divã. Ninguém podia saber. As pessoas eram falíveis, as aparências precisavam ser salvas. Risos saudariam sua queda.

               Olhou-se no espelho. Estava completo, integrado: o demo e ele — um todo. Tranquilizou-se. Permaneceria movendo-se nas sombras até que um descendente forte viesse substituí-lo. Haveria muito a se fazer. “Controle! Controle!”.
Fheluany Nogueira
Enviado por Fheluany Nogueira em 30/11/2017
Alterado em 30/11/2017
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