Fheluany Nogueira
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A Renascida
 
 
 
 
— Primeira vez —
 
                   Festa de aniversário. Minha amiga puxou a cadeira e eu bati com a cabeça no chão. Diante do susto aglomerado, a mãe dela explicou:
 
                   — Bárbara tem uma bola de sangue na cabeça, levou três dias para nascer, foi preciso apertar uma carapuça na cabeça dela e aí endireitou. O médico, depois, disse que não havia o que fazer.
 
                   — Fiz força para não nascer. A parteira puxou. — a menina emendou na tentativa de um pedido de desculpas.
 
                   Complacente, enternurei-me. Logo descobri que esta piedade era levemente ridícula e que não era possível corrigir o passado.
 
 
— Segunda vez —
 
                   Com sete anos Bárbara já sabia reagir ao embate da intemperança materna. Éramos vizinhas, a mesma idade, mas ela estava no comando, ideias e ações eram dela. O dia todo a voz era dela:
                  
                   — Dulce, venha brincar! Correr! Jogar! Vamos... vamos...
 
                   — Dulce, olhe o cavalo na selaria... o cachorro mexendo no lixo... a Furupa deitada na calçada...
 
                   — Dulce, isto e aquilo! Vamos e venhamos! Aqui e ali!
 
                  
                   Brincávamos no quarto, quando uma voz mandona se fez ouvir:
 
                   — Mamãe tá chamando. Quase hora de almoço! Anda, Bar, simbora... — A irmã foi entrando no quarto, sem avistar ninguém. Misturadas às roupas, mal respirávamos dentro do armário...  difícil foi segurar o riso. A mocinha saiu e quando percebemos que era seguro, de volta para a casinha:
 
                   — Sítio da vovó. Lá não vão amolar a gente. Vamos? Tem moranguinho para você. E biscoito, e doce-de-leite, e pudim-de-pão... Não é longe não. — A líder se pôs a falar, ansiosa, argumentativa. Nem precisava, já me convencera pelo estômago.  Saímos quietinhas, sorrateiras, pelo portão do fundo da horta, na rua debaixo, pelo outro quarteirão, por onde não nos descobririam.
 
                   A cidade já ficara para trás, a estradinha estreitava, o sol mais quente mesmo no inverno da serra, pele e cabelos maltratados pela poeira, sede, fome e Bárbara tagarelando: o panelão de ferro, os bezerrinhos, as laranjeiras... Cruzávamos com algumas pessoas que estranhavam duas meninas tão pequenas, sozinhas; até que uma camioneta parou:
 
                   — Ei, num é neta do seu Zé Carro? As duas entrem aqui. Vou pra aquelas bandas. — (Não fiquem pensando coisa ruim. Os tempos eram outros e tudo deu certo. Quer dizer, mais ou menos...)
 
                   Da casa do avô, para casa, cada uma na sua. Muita fala, muita ladainha, eu nem entendia toda a movimentação. Até a polícia. Lembro bem do abraço quente de mamãe! Amor tão desesperado que nem castigo veio...
 
                   Minha amiga se afastou de casa, de início... Não sei se os pais dela proibiram, se foram os meus. Dias, meses correndo, a memória se arrefecendo — a escola, a mesma classe, devagarzinho tudo foi retornando. Mamãe demorou mais um pouco a esquecer:
 
                   — Cuidado, esta menina é bárbara! Não sei se é boa amizade...
 
 
—Outra vez —
                  
                   Não estava fazendo barulho: estava ouvindo Raul Seixas.
 
                   — Pois então abaixa esse som.
 
                   — Eu vou embora — foi a resposta.
 
                   Distraída com os afazeres domésticos, a mãe não reparou que Bárbara, juntava ação às palavras: desligou a eletrola, colocou duas trocas de roupas na mochila, a bolsinha de moedas, o disco do seu ídolo, dependurou nas costas, bateu a porta com força e foi em direção à rodoviária. Eu mesma a avistei, ao longe, caminhando cabisbaixa ao longo dos muros. De repente o pai dobrou a esquina. Parou e perguntou o que acontecia. Sacudiu-a pelos braços, empurrou para dentro do carro; uma calma vagamente inquietante. De casa ouvimos os gritos, de mãe, de pai, da irmã, de Bárbara — gritos automáticos, não sei se traduziam dor ou raiva...
 
 
— Um turbilhão de vezes —
 
                   Bárbara, doze, foi para o colégio das freiras. Este dia não testemunhei, mas ela me contou tudo, chorando: chovia quando saiu, fazia frio. O projeto começara na piscina; mergulhou, nadou, alcançou o outro lado e viu que tinha de sair: da água e do internato. O mundo brilhava lá fora, cheio de pecados, era preciso assumi-lo com urgência antes que a iluminação de fogos de artifício se desfizesse com o passar dos anos. Foi da piscina ao dormitório, estava decidido. Saiu pela porta da frente, sem que a descobrissem. Tinha dinheiro para o táxi. A casa a recebeu perplexa. Bárbara de novo, na turma.
 
                   — Não quero você com esta desmiolada! — mamãe sempre alerta.
 
                   — A senhora faz tantas acusações... É minha amiga! — eu sempre na defesa.
 
                   Nos longos cabelos dos quatorze anos, Bárbara se deslumbrou com Sérgio que levou-lhe flores. Saltara o muro, pulara a janela. Depois de Sérgio, Guido, Henrique, Bruno...

                    Ela se confundia com as coisas, natural, sem esforço, integrada. Bárbara e as coisas, um mundo só. Deitada por detrás das moitas, à beira dos açudes, esperava as aves da tarde, grandes, coloridas, exóticas, de outras eras. Sentia, de peito, o cheiro das plantas, picantes, agrestes, suaves, surpreendia as traíras grossas nos rasos das águas entontecidas de sol. Vivia seus momentos de coisa integrada às coisas: decompunha, quase erótica, terrões mornos e doces, com as mãos porosas, deixava as mãos nas águas mornas; enterrava as unhas nas cascas sumarentas das frutas, do alto das árvores, em convívio com os pássaros, lançava gritos vivos de selvagem em orgasmo para o alto, para a amplidão. O mundo de espanto e alegria podia estar numa gota d'água sobre o vívido verde de uma folha, sobre um inseto colorido, uma ave em voo, uma fruta madura...
 
                   — Selvagem, é o que esta moça é. Você vai ficar falada, como ela!— minha mãe insistia.

                   — Daqui a pouco a Bárbara vai ser responsável pelo aborto, pelas tentativas de suicídio. Ela me procura porque quer, eu não vou fugir dela porque não sou frágil. O povo que se arrase...
 
                    Bárbara, 16, partiu mais uma vez... Bárbara rodando no mundo. Ficou a espera. Fiquei a desmerecendo, inventando casos. Fiquei a expulsando de minha cabeça por cinco anos. E doeu, como doeu...
 
                   Outro dia, vi cenas de protesto em São Paulo. Jurei que Bárbara estava na multidão...
 
                   — Que isso? Que isso? — a mãe perguntando e eu voltando do passado, recompondo as glândulas, limpando o suor...
 
 
 
— Última Vez —
 
                   Hoje morreu uma mulher. Quem era? Nada, duas vezes nada. Será que nasceu? Nascer: nada ser, melhor dizer, a sem nome ou a que se escondia sob a capa bonita. A inata, um nome de guerra. Mas para quem quer saber mesmo, usarei a fórmula de contentá-lo à superfície, com o rótulo mais remoto da face da terra: uma prostituta; remotamente a amei, ou melhor, invejei, quando ainda era Bárbara... Prometi-lhe uma amizade que não cumpri. E aqui estou deliricamente falando sobre ela.
 
                   Avisaram a família. Buscaram o corpo. Caixão lacrado. Agora sim, é Bárbara quem morreu, desastre, vejo-a como uma fruta partida, as sementes espalhadas no chão. Por que eu e minha amiga nos separamos? As coisas mais belas lhe tumultuavam por dentro, no peito acústico, no sangue tépido. Ela sempre deitou no chão, rolou, mordeu o capim, em espasmo, sem contenção. Bárbara, pedaço do mundo, em concerto com o mundo, íntima das coisas.
 
 
Fheluany Nogueira
Enviado por Fheluany Nogueira em 01/09/2017
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