Fheluany Nogueira
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Tateando Trevas DTRL 29,5 #luto#
 


      É desnecessário. Se não existe futuro para que carregar o passado? O fardo acabará com o prazer da jornada. É preciso se livrar da sobrecarga.
 
      — Pare, vó! Não aguento seus chinelos arrastando de um lado para o outro, sem destino... Essa reza lenga-lenga... Chega de tanto sinal da cruz.
 
      — Não tenho o que fazer! O Zeca não podia ter feito o que fez comigo. — lamentou dona Teresa no mesmo tom repetido há cansados cinco meses. Rezo pela alma dele.
 
      — Foi um acidente. O vô não se matou, tire isto da cabeça. A senhora acha que ele entraria debaixo de uma carreta de propósito? — Laerte se abrandou.
 
      — Já expliquei: seu avô veio bebum da rua, brigamos; ele quis me bater, peguei a faca e disse que o matava se me encostasse. Nunca desistia de me agredir e, naquela hora, Zeca desistiu, entrou no fusca e saiu feito doido. Eu quis que ele morresse...
 
      — Dirigia mal, bebia muito, ia acabar assim mesmo. Deixe para lá...
 
      — Não entende? Eu! Eu desejei a morte dele! Eu pedi ao capeta!
 
      — Vó, aproveite a vida agora. Descanse!
 
      — Ele não vai deixar as coisas desse jeito. Vingativo como ele sempre foi, vai dar um jeito de revidar.
 
 
      A infeliz não dormia mais, o escuro da noite costurava histórias de assombros e visagens. O neto de treze anos era o que lhe restava. Pedira ao genro para colocar o rapazote na escola ali, custearia tudo em troca da companhia. Mas a sonolência da juventude e o cansaço tomavam conta dele. Estava sozinha, com os olhos esbugalhados em pavor na escuridão.
 
      Teresa sentiu um toque carinhoso nas mãos, seguido do beijo, ao mesmo tempo cálido e frio. O abraço metálico provocou-lhe saudades e dor. Palavras estranhas ecoavam sem controle: “Nunca deixe alguém na estrada no frio”, “Você é minha, tem que me seguir”, “Por que me mandou para a morte?”, “A mulher deve vigiar e orar em favor do marido”, “ Leia a Bíblia, leia Mateus” — e números eram desenhados na mente perturbada 26, 41.
 
         Era algo como leves sussurros que lembravam a voz máscula dos momentos de amor. Aos poucos, ia se transformando, uma raiva parecia crescer, gritos de palavrões substituíam os murmúrios. Apavorada ela se encolhia e ficava revivendo a tormenta que enfrentara tantas vezes. A noite ia passando... e de repente o tempo voltava ao normal, a realidade retornava quando o garoto se remexia no quarto ao lado. Tudo estava como antes, menos o coração da viúva relutante em esquecer.  Aos poucos e, apesar do medo, adormecia vencida pelo sono.
 
 
      — Bom dia, vó! Dormiu? — Laerte vinha repetindo a mesma fala, e ouvia a resposta de sempre:
 
      — Sonão! Não percebeu nada? Não ouviu sons estranhos? Nenhum burburinho, gritos, movimento das portas, passadas aceleradas no corredor, tilintar de objetos? Nada? Belo companheiro! Posso contar com você, hein? — desabafou a senhora bebericando o café que lhe renovava as forças.
 
      — Foi sonho! Tomou o remédio de dormir? Tchau. —o garoto saiu apressado para a escola. Sentia-se no limite.
 
 
    Nas noites seguintes, Teresa continuou a ouvir os barulhos, mais altos, mais nítidos. O homem mais atrevido, mais vivo, mais raivoso. Às vezes, batia com as mãos nas portas, provocando-lhe pulos de susto. A madeira antiga rangia com os passos no corredor. Eram sombras escuramente longas, perdidas no sem-fim... A voz exigindo que ela lesse a Bíblia, citando capítulos e versículos. 
 
      Tomado por uma súbita coragem, naquela noite, a mulher abriu os olhos.  Dentro da casa a atmosfera era estranha e fria. Um assopro atingiu-a, trazendo-lhe arrepios na espinha. Imediatamente ouviu um baque, era como se algo tivesse caído pelo telhado. Teresa viu, no chão próximo da cama, uma perna decepada. Gritou enquanto outra coisa surgia, quase caindo por cima dela: a outra perna. Paralisada, percebeu que outros membros vinham rolando com o tronco, até que uma cabeça tenebrosa caiu sobre os restos mortais. Como vermes rastejantes os membros, tronco e cabeça se juntaram até formarem um cadáver fantasmagórico.  Nunca uma sensação havia dominado o seu corpo dessa forma. O terror era intenso.   Orava, ensandecida pedia que aquilo parasse. Movendo os olhos e observando a mulher, o amortalhado apontou na direção do livro sagrado sobre a mesinha.  Os gestos eram determinantes, que pegasse a Bíblia e lesse. Sem ter como fugir, entre calafrios, ela acendeu a lâmpada e iniciou a leitura, com a voz baixa e abafada; molhava os dedos trêmulos na boca e foi folheando o livro até que os primeiros raios de sol iluminassem a casa.
 
      Laerte misteriosamente dormira pesado. Pela manhã, ao ouvir a história da avó, olhou-a como se estivesse louca ou algo do tipo e ainda ironizou:
 
      — Ler a Bíblia faz bem...
 
 
      Teresa entrou em profundidades negras das mais negras. E boiava sem fôlego, com gosto de sangue vivo pela boca, como se trouxesse demônios dentro de si. Ela estava doente, ou só agora a família percebia que sempre esteve doente. O menino demorara a avisar que o comportamento da avó era singular. A viúva deixava cair a cabeça sobre a Bíblia, tomada de lassidão, acordava tarde, não tinha vontade de sair da cama, não se alimentava. Escondia-se das pessoas, não lhes suportava as velhas histórias desgastadas, os elogios ao falecido. Ficava em pedaços, em momentos, em épocas, em contornos, acompanhava os acontecimentos sem uma sequência temporal lógica, com zonas apagadas, tomadas sem ordem alguma. Vômitos e dores, muitas dores...
 
      Médicos, hospitais, nada adiantou. Teresa foi enterrada junto ao marido. Era uma tarde nebulosa que deixou Laerte em grande tristeza. Os familiares vieram do cemitério em silêncio; doía pesado, denso, sofrido.
 
      — Temos dois lutos, agora. Que dureza! Mas acho que vovó vai ficar bem, não suportava mais a choradeira dela por causa do vô. — o menino quebrou a mudez e entrou rapidamente na casa, procurando a bíblia que a avó lia constantemente.
 
      — Este livro matou vovó! — gritava chorando. E, antes que pudessem impedi-lo atirou-o na boca do fogão de lenha onde crepitavam labaredas. Ainda com movimentos automáticos e sem que os outros na casa notassem, limpou o rastro do pó alaranjado caído do livro. Lá no fundo da alma, um vazio, um oco...
 
 
 
      
Fheluany Nogueira
Enviado por Fheluany Nogueira em 07/01/2017
Alterado em 10/01/2017
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