Fheluany Nogueira
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Cada um tem a sua Fada
 


               O ser humano vive reprimido, sem poder (consciente ou inconscientemente) exteriorizar suas pequenas fantasias ou seus pequenos desejos. É preciso se permitir algumas divagações — é preciso aceitar as pequenas fraquezas para se sentir mais leve e mais feliz. Este é o tema de “Fada Cisco Quase Nada” de Sylvia Orthof: dentro de cada um, criança ou adulto, existe espaço para morar uma Fada. Ser literalmente criança ou, ser deliciosamente criança, de novo, ter ideias e atos inconsequentes, mas inofensivos. É tornar possível o sonho no confuso mundo interior, representado no livro pela desordem dos ambientes.

               O estilo da autora é singular: um misto de prosa e verso ou uma prosa musical, ritmada e rimada. O texto é iniciado de forma diferente das canônicas: “Era uma vez...” ou “Um dia...”. O que ocorre é uma marcação de espaço indefinido, um lugar qualquer e misterioso conotado pela palavra “floresta” e reforçado pela conjunção alternativa “ou” (“Depois daquela floresta/ Atrás do monte ou defronte”).

               É criado a seguir certo suspense sobre a personagem — a partir de sua caracterização — “uma pessoinha”, “tão pequena escondida” e “nem dá pra se ver direito” e assim começa a se justificar o título do livro. Para destacar a estatura da personagem, além do pleonasmo (“pessoinha tão pequena”), é empregado o imperativo ”olha bem”, repetido na página seguinte, quando acontece a identificação completa da personagem central que só poderia ser uma FADA mágica, porque mora em uma rosa (símbolo poético do amor, pureza, perfume, perfeição, suavidade...).

               A apresentação desta rosa é feita através de sinestesia — é o concreto, os órgãos de sentido, que atinge e sensibiliza o leitor — “cor desbotada” (visual), “perfume”  e “cheiro” (olfativo).
              
               O mágico agora é explícito (“a rosa é encantada”), pois a conhecer a morada da Fada é preciso atender a uma exigência: ser ou ter espírito de criança — este é o primeiro conflito.

               A incorporação da oralidade já marcada pelos diminutivos como “pessoinha” e o inovador “pouquinha”, ou pelas contrações como “prá”, ou ainda pelo modo como o leitor é envolvido com interrogações diretas ou indiretas (“Onde está? Só procurando.”) — é sentida também pelo tom de cumplicidade e intimidade com que se refere ao leitor, com o uso do imperativo e do pronome “você” e mais ainda pelo uso do verbo da primeira pessoa do plural que sugere uma interação maior entre leitor/ autora. É como se o texto fosse um diálogo, uma confidência, uma troca de segredos — a descrição foge à tradicional, fotográfica, estática. Há dinamismo visual cinematográfico: as imagens vão desfilando aos olhos do leitor, reforçadas pelas cores.
 
               O segundo conflito (dificuldade para se conhecer a casa da Fada) é criado com o “espinho” que guarda a porta. Com cuidado (“devagarinho”) ele é superado; avista-se então a entrada é “de seda e atapetada” (sensação tátil que conota maciez, suavidade).
 
               A palavra “rosa” Passa a ser explorada em todas as possibilidades semânticas, pelo texto e pelas ilustrações que são extensivas a ele. Surgem, então, elementos que geram outro pequeno conflito: ”labirinto”, “corredores estreitos” e surpresa! — a desorganização da Fada. São valores que se opõem: a rosa, por fora é beleza; por dentro é “amontoado”. O espaço é marcado por operadores como “ali”, “naquele lugar”, “mais adiante”.  A linguagem é afetiva trazendo algumas surpresas semânticas como “lustres de pirilampos”, “de pétala de violeta é a seda do pijama” — a palavra “seda” aparece pela segunda vez para reiterar a ideia de suavidade, apesar da desordem.
 
               É iniciada, assim, a caracterização da Fada— preguiçosa, abagunçada e boceja — que se opõe à rosa, porém se identifica com a criança. O parágrafo seguinte do conto é introduzido pela conjunção “mas”, que vem marcar uma mudança de estado; o suspense atinge o ponto mais alto: o que vem a Fada fazer em “seu” quarto (O possessivo marca a dubiedade: de quem é o quarto?). Tudo se explica ao virarmos a página — é a interação total, a identificação da Fada com a criança — o quarto é da criança, fica todo bagunçado, mas a Fada é a culpada... O trecho poetiza o cotidiano e completa o lirismo com uma ironia afetuosa: “e seu quarto fica lindo”.     É a Fada manipulando a criança para dominá-la, para mostrar-lhe novos caminhos ou para conduzi-la à aceitação?
 
               Na última página, nova quebra de estado: “você” adulto, o quarto arrumado e nem se lembra da Fada. Outro “mas” e a desordem retorna — o quarto será a “rosa”. É a volta à infância, saudosismo, busca pela inocência perdida? Tudo culpa da Fada Cisco.

               Assim é concluído o moderno conto de fadas, ao justificar o título: a palavra “cisco” tem duplo sentido — é sujeira, amontoado e, também conota “coisa pequena”. A felicidade é composta de pequenas coisas e não podemos abandoná-las.
 
               Trata-se de literatura infantil que traz uma mensagem densa. Adultos e crianças se deliciaram com a leitura, complementada pelas ilustrações divertidas e instrutivas.




 
 
Fheluany Nogueira
Enviado por Fheluany Nogueira em 12/09/2016
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