Fheluany Nogueira
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Morte Compartilhada 




     O pároco estava ali no velório apenas para dizer palavras de conforto à família. Era um suicídio, um pecado escandaloso e ele não poderia rezar por sua alma. Não poderia benzer aquele corpo jovem e bonito que contrastava com o caixão roxo em que se deitava, guarnecido de rosas brancas e amarelas. Muito choro, muitos gritos e um zunzum mórbido eram os sons que dominavam o ambiente do velório:

     - A menina estava depressiva? Ela era tão solitária...

     - Não tinha amigos? A garota não tinha namorado?

     - Ficava muito tempo na Internet... sites que ninguém sabe...

     - Meu Deus... ninguém pensou em um tratamento médico antes que ela se enforcasse?

     Enquanto acarinhava o rosto bem emoldurado e os longos cachos dourados da garota, a mãe, em estado de choque, repetia a cada um que lhe dava os pêsames como encontrara a filha dependurada na trava do telhado baixo da lavanderia. Parecia que todos estavam surpreendidos com a atitude da jovem e desconheciam qualquer motivo para que ela se matasse, uma vez que ela tinha uma vida absolutamente normal e não havia comunicado estar passando por qualquer tipo de problema. Somente uma mania; porém... O vício em Internet parecia rotina nos últimos tempos... Eram vários garotos de idade aproximada que dobravam a noite, conectados em dispositivos diversos...

     O burburinho cresce quando entra no salão um casal que, com soluços incontroláveis, se dirigem aos pais em luto. Abraçam-se fortemente. O filho dos recém-chegados também se enforcara na semana anterior. O rapaz tinha a mesma idade, era da mesma turma escolar, naquela pequena cidade serrana.

     Padre Jacinto observava aquele encontro e mais intrigado ficava com aquela situação que agredia brutalmente o convívio familiar e social dos seus paroquianos. Era o nono suicídio por enforcamento em menos de três meses. Que ele soubesse, todos os jovens que tiraram a própria vida tinham o mesmo perfil, todos se conheciam, não viviam nenhuma dificuldade mais séria, bons filhos, estudantes dedicados. Qual teria sido a motivação de cada um deles? Autodestruição? Tédio? Vislumbre de um futuro apático?

     O religioso ficou mais confuso ao ouvir os sussurros de alguns colegas da falecida a um canto do corredor. Uma voz era mais insistente:

     - Vamos embora! Não podemos perder o encontro de hoje!

     - Faltam quatro... temos um pacto...

     - Psiu... o padre...

   - Vamos! É quase meia–noite... o chat... Ninguém cai fora... A punição é pior...


     A polícia já estava envolvida. A investigação seria necessária. Uma, duas mortes... mas, nove? E esta conversa que acabo de ouvir... Estaria relacionada com os suicídios? Qual o significado disto tudo? Melhor comentar com o Delegado.

     Na Central de Polícia o Padre relata o que ouvira na noite anterior. Um dos investigadores conta tudo o que já apuraram, pedindo que seja como um segredo de confessionário para que as investigações não sejam prejudicadas. O policial acrescentou que precisariam mesmo da ajuda da Igreja, porque necessitavam dos seus conhecimentos. Parece que todos aqueles suicidas eram solitários e estavam aficionados pelo mundo digital, por formas de religião estranhas e também por jogos RPG, diferentes dos convencionais, pois, neles, não há ganhadores nem perdedores.

     Haviam também checado todos os arquivos dos computadores, tablets, celulares e outros aparelhos eletrônicos pertencentes aos jovens. Todos frequentavam os mesmos sites direcionados para rituais satânicos, anticristo, bruxaria. E mais, praticavam RPG, esses jogos em que os participantes interpretam personagens, criando um enredo guiado por uma delas. Procuravam o ID e o IP de um PC que poderia ser deste líder, do Mestre que conduziria a trama do Jogo. Este site de conversação era visitado diariamente até a véspera de cada uma das mortes, mas cujo histórico fora apagado justamente em horário próximo delas.

     - No Satanismo acreditam no poder do ódio canalizado. Essas seitas vêem Satã como o Príncipe do mal, então ele é o criador e dono deste mundo mau. Anticristo é o opositor a Jesus, e será o maior líder de toda Terra; é mencionado em várias partes da Bíblia, está ligado ao Apocalipse. Ele vencerá pela diplomacia, pacificamente, convencendo todos os líderes mundiais, com sutileza, engenhosidade e sabedoria. Tudo isto ligado à bruxaria e ao RPG, não poderia dar um resultado positivo. - interferiu o religioso na tentativa de auxiliar as investigações policiais.

     - Precisamos encontrar alguém do grupo que ainda tenha os arquivos. Vamos investigar estes jovens que estavam no velório ontem. Já sabemos quem são os pais e seus endereços. __disse o investigador chefe, acrescentando:

     - Outro fato curioso é que essa criançada parecia preparar-se para a morte até com a alimentação. Todos eles faziam uma dieta á base de arroz branco e um chá misterioso, com folhas e flor de papoula, além de cogumelos. Seus pais vinham contrariados observando isto. E estavam cada vez mais solitários, fechados em seus quartos, conectados à rede.


     Na semana seguinte ocorre mais um estrangulamento - um rapaz. O enterro ocorre no mesmo clima dos demais. O vigário comparece e nota aquele mesmo grupo que conversava no outro velório. A garota da voz insistente estava bastante alterada. Magra, pálida, olheiras bem marcadas, lábios arroxeados, cabelos mal penteados, gestos e olhares muito agitados; parecia nervosa e notavam-se manchas sanguinolentas nas suas calças.

     O Delegado que se aproximara de Padre Jacinto indagou o que ele notara no comportamento daquela moça. Comentou ainda que os pais dela chamaram a polícia, porque ela estava quebrando objetos em seu quarto, com muita violência. Mas a garota abriu a porta e os atendeu como se nada houvesse ocorrido. E, o mais estranho, o quarto estava todo organizado. Não puderam fazer nada... Suspeitavam que o computador que procuravam era o dela. O juiz estava resistente em dar autorização para busca, já que ela era menor de idade.

     Dois dias se passaramm. O religioso foi chamado pela polícia à casa de Mariana, a suspeita. A mãe desesperada o encaminhou até o quarto que tinha a porta arrombada. A cena vista deixou o padre assombrado. Amarrada à cama, a menina se debatia... arrancara suas roupas, tinha cortes profundos nos braços e pernas, conversava com seres imaginários usando linguagens desconhecidas ou rosnava como um animal selvagem. Além de atacar a si mesma com uma faca, também agrediu violentamente o pai e o ferira no abdômen. Ainda mordera uma vizinha e, interessante, as marcas eram semelhantes às de uma serpente.

     O detetive encarregado do caso explicou que estavam ali por causa dos ferimentos. Os vizinhos chamaram a polícia e Padre Jacinto fora convocado porque repetiam que aquilo tudo era coisa de Satã e havia necessidade de um exorcismo.

     Para acalmar os envolvidos naquela situação embaraçadora, o vigário retirou um crucifixo e um pequeno frasco que trouxera na mochila e erguendo a cruz aspergiu água benta sobre a jovem que emitia gritos terríveis. A cama começou a vibrar e eram ouvidos sons arranhando as paredes do quarto. O padre tentava rezar em voz alta, mas todo o seu corpo tremia percorrido por arrepios, seus dentes batiam e mordiscava a língua involuntariamente. Ele sentia que realmente havia um espírito maligno ali naquele quarto. Era absurdo o que ocorria com Mariana. Ela falava sem mover os lábios, urinava constantemente, insultava e provocava o sacerdote, a mãe, os policiais... A situação começara a piorar rapidamente. Algumas frases eram articuladas claramente pela mocinha:

          - Judas, o traidor morreu enforcado!!!!

     - A morte é o maior sacrifício que se pode dar ao Lorde das Trevas...

          - É a hora! Salve a Besta!
          
          - Esse mistério já está operando e preparando o caminho para a entrada do Anticristo. O Pastor Inútil está presente, camuflado, em algum lugar, aguardando apenas o momento...

          - Aleluia às forças demoníacas! Salve o pecado!

     Padre Jacinto participava desorientado de toda aquela cena. Parecia-lhe um filme holidiano. Por que aquele comportamento tão autodestrutivo? Por que aqueles jovens se encontravam sem coragem para enfrentar os desafios da vida? A polícia já abrira o computador de Mariana. Todo o histórico de navegação deletadado. Nenhuma pista. Aquela atitude psicótica. Aquela cidade displicente sem recursos para uma investigação melhor. Precisaria entrar em contato com o bispado para saber o que poderia ser realizado na prática.

          O médico, com o auxílio de três homens, conseguiu aplicar uma forte droga na garota que agora, com o corpo exaurido, dormia pesadamente. Todos saíram. Apenas um policial ficara de guarda do lado de fora do quarto, onde apenas a mãe acarinhava a menina desfalecida. A casa sossegou por algumas horas, mas é despertada pelos gritos desesperados da mulher que cochilara por uns momentos, mas que foram suficientes para que Mariana, não se sabe como, conseguisse se desamarrar e com a mesma corda de nylon se enforcar. O corpo miúdo balanceava no lugar da lâmpada que iluminaria o aposento refletido pelo luar que penetrava pela janela aberta.

     A casa está novamente agitada. Policiais, religiosos nada puderam fazer, não conseguiram evitar outra morte prematura, outro jovem que extrai a vida de si, que aborta sonhos... Era o décimo primeiro enforcamento. Padre Jacinto refletia. Ouvira no velório da nona vítima que faltavam quatro mortes. Seriam então treze, no total. Cumprir-se-ia esta sentença?

     Aquele ano acabou. Veio outro. Padre Jacinto não tinha mais a mesma fé. Aqueles episódios não lhe saíam da mente. Difícil aceitar que não era uma mera história, eram fatos reais. Ele fora transferido de paróquia. O Delegado arquivara os processos, sem solução. Nenhum outro jovem atentara contra a vida, ao menos, não, daquela forma. O gatilho ativador daquelas tragédias jamais seria conhecido com o descaso das autoridades. Somente restava o luto pelas perdas e o mistério....


TEMA: MANIAS
Fheluany Nogueira
Enviado por Fheluany Nogueira em 02/09/2015
Alterado em 09/08/2017
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